Reencontrando caminhos

Por: Jane Mahalem do Amaral

Provence, sul da França. Região desenhada por encostas que abraçam o Mediterrâneo. Início de primavera. Dos galhos secos, os primeiros brotos. A vida ressurge.

Estamos lá, no Mosteiro Saint Michel Du Var, um grupo de peregrinos determinado a a reencontrar caminhos.

Segundo a tradição daquela região, pelos anos de 42 a 44, no século 1, chegam os primeiros cristãos, fugidos da perseguição na Palestina. Em Les Saintes Maries de La Mer, aporta a primeira barca, trazendo a família e amigos de Jesus. Eram eles: Lázaro (aquele que foi reanimado), suas irmãs, Maria Madalena e Marta, Maria-Jacobe, Maria- Salomé, tia e prima de Jesus, e ainda seus fiéis companheiros, Sidônio e Maximino. Depois vieram outros. Era preciso salvar a si mesmos para salvar a palavra do Cristo. Começa a evangelização na Europa e o berço é a Provence.

Nesse lugar, começa a nossa caminhada: Arles, Tarascon, Marseille, Frejus, La Saint Baume, Les iles de Lerin e tantos outros lugares a que fomos, em busca de um resgate e de um reconhecimento do início do Cristianismo.

Quem foram esses primeiros cristãos? Qual era a sua prática? O que pensavam eles e como agiam? As pedras das inúmeras escavações traziam as respostas. Acompanhados pelo casal Pascal e Marie Tattier, ele arquiteto urbanista, com grande sabedoria arqueológica, ela assistente social, estudiosa dessa tradição e Monseigneur Martin, bispo da Igreja Ortodoxa Francesa, fomos desenhando uma viagem no sentido horizontal, enquanto percorríamos a história desses homens e mulheres que nos precederam e, no sentido vertical, enquanto fazíamos um retorno às nossas próprias terras interiores. Buscar, quem sabe, aquela pureza dos primeiros anos do Cristianismo, antes que disputas o tornassem um objeto a ser conquistado. Sentir o frescor e o hálito daquelas mulheres fortes, a coragem e o destemor dos homens, escolhendo para suas vidas o único e o necessário, sem medo, sem indecisões. Reconhecemo-nos, então, cristãos distanciados dessa verdadeira fonte de Água Viva. Longe do Essencial.

Na verdade, peregrinar em busca de lugares ocultos e de histórias passadas, nada mais é do que ir em direção a nós mesmos. Nesse caminho, somos convidados a trilhar desertos internos, lugares nunca habitados, ou “apenas abandonar nossas memórias que quase sempre confundimos com nossa identidade”, como nos diz Jean-Yves Leloup. Deixamos o conforto das idéias pré-estabelecidas e partimos para o não conhecido que somos nós. Tiramos as cores da fantasia e, em branco e preto, podemos entrar em outro espaço, em outra dimensão e aí, nesse lugar, somos interrogados por todas as imagens que nos habitam.

A história oficial questiona essas presenças evangelizadoras dos primeiros séculos, na região da Provence, mas é preciso ir lá para compreender que, na verdade, elas não só estiveram lá, como ainda estão em cada passo, em cada gruta, em cada capela ou sepulcro. Elas estão vivas.

Muitas vezes temos que olhar, com olhos bem abertos, e nada enxergar de concreto ou de palpável. Apenas nos convencer de que a primavera vai trazer as flores nos pequenos brotos que surgem. É aí que se revela o Mistério e é ele que vai nos ensinar, mais uma vez, a reencontrar caminhos que já pensamos perdidos.

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