Curta metragem

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Síntese: o quase enfarto provocado por brincadeira ingênua.

Protagonista: Dom Corleoni, importante comerciante do ramo das exportações e importações de calçados e similares, assim apelidado pela postura sóbria e impassível.

Vilão: Gonzaga, alcunha de importante comerciante que reina no centro da cidade.

Coadjuvante: Chico funcionário do Clube de Campo e, aos domingos, proprietário de famoso ponto de venda de cachaça, de pastel frio e cerveja quente, na periferia da periferia da cidade.

Figurantes: Robertão, imortal ás do basquetebol; Moacir, alcunhado de Alkmin; Jovassi, apelidado de A Voz; Márcio Tuvirão; Fernando ; Saul, mais conhecido pela alcunha de Mal Acabado e demais integrantes do Grupo do Circo, instalado nas proximidades do Senhor Café.


Ação

Para se livrar dos insistentes pedidos do amigo Dom Corleoni, Gonzaga lhe traz, lá de sua propriedade rural, um parrudo frango caipira.

Chico é incumbido dos preparativos para a entrega e desempenha bem sua função. Assim, todos os figurantes, devida e previamente instruídos, estão vestidos e revestidos de inocência. Suas caras de anjo impossibilitam desconfianças da vítima.

Ela desce do carro e caminha com passos resolutos em direção ao café, quando é informada por Chico de que, finalmente, o Gonzaga lhe trouxera o desejado frango. D. Corleoni dirige-se ao vilão, ostentando meio sorriso de contentamento. Quando abre a boca, para agradecer, o Gonzaga solta o animal e ouve-se o estalido provocado pelo encontro de mãos. O som semelha tiro de revólver avisando aos nadadores que podem saltar na piscina.

O frango nada entende de natação, nem de prova. Seu instinto, porém, grita anseios de liberdade, grita avisos de perigo. E ele corre.

E Dom Corleoni corre atrás da ave, esquecido de canteiros, de bancos, de árvores, enquanto se esguela:

- Pega... pega... Cerca aí...

Os figurantes todos fingem esforço, parecem estar prestes a segurar o animal. Em verdade, espantam mais o bicho. A fleuma do importador e exportador tropeça, cai, levanta, corre, surda às gargalhadas, aos sarcasmos e aos incentivos falsos:

- Isso, isso... Pega... pega...

Ao fim de minutos, o bicho para extenuado debaixo de uma roseira, e o homem lança ambas as mãos em seu dorso. Tenta levantar-se, ostentar o troféu para os amigos, porém suas pernas se flexionam e ele cai sentado na mistura de grama, terra e esterco.

O riso dos amigos é gradativamente substituído por fisionomias preocupadas.

A cara da vítima está molhada de suor, a água empapa o colarinho, o peito de sua camisa. Alguém mais esperto afrouxa sua gravata, desabotoa sua camisa, enquanto ouve a súplica.

- Água... água... água, pelo amor de Deus...

Alguém corre até o bar, volta com duas garrafas d´água, deixa que o homem sentado beba um gole, despeja o conteúdo da outra em sua cabeça.

Depois de minutos compridos, o homem tenta ficar em pé, tem de ser amparado por dois ou três figurantes. Um deles, se apodera do galináceo, acompanha os colegas que sustentam o pegador de frango. Buscam mais água, despejam-na, ela escorre pelos cabelos, pelas faces, pela nuca, molhando paletó, camisa e gravata, levando embora a costumeira fleuma do companheiro.

Algum tempo depois, o sangue que se juntara no rosto volta a leitos costumeiros, apagando da platéia o medo real de um enfarto iminente. E tudo retorna à normalidade, quando a vítima gagueja:

- Meu frango.... cadê meu frango?

Observação: qualquer semelhança com fatos ou pessoas, não é mera coincidência. A culpa é toda da Praça Barão com seus espaços ricos de histórias.

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