Amarela, lúcida

Por: Maria Luiza Salomão

Respeito minha tristeza: sei que ela é passageira fugaz, florada de uma noite, mas sei também que ela é uma espécie de mensageira a anunciar um rearranjo súbito nos confins do meu não-saber: dói, mas é bom.

A Tristeza é companhia discreta e amável que me contém, sem coibir. Quando volto de uma viagem, ansiada e sonhada, é ela quem me envolve. Estranho? O que me deixaria triste? Visitar culturas distintas, e voltar, sempre e a cada vez, para o cadinho da cultura que me moldou, desde o nascimento? Na satisfação do sonho da viagem, com sentimentos misturados, fica em mim forte sensação de fim de alguma coisa. Cessa a procura prazerosa, no repente, com o sonho realizado, e me resto perdida. Descubro que era feliz por isso: pela procura. Do quê, meu Deus?

Em cada viagem desenrola uma espécie de filme onde há personagens e um drama, mais do que cenários. Nos personagens brota um destino, uma trama que traz uma revelação que me era, até então, desconhecida.

A viagem é como o trailer de um filme, pistas de um enredo. Mas, não sou eu a autora do trailer! O trailer se faz posterior à feitura do filme, na escolha das cenas, a ocultar o desenlace do filme, atraindo o espectador para possíveis histórias. Quando viajo eu estou no trailer, estou no setting, conheço os personagens. Estou nas cenas como personagem, diretora, assistente, espectadora. Ativa por vezes, mas no mais das vezes, passivamente. Pouco sei da história enquanto estou, fragmentária mente.

Quando regresso, eu tenho um filme com princípio, meio e fim. Montar e editar o filme da viagem me custa tempo e esforço. De Londres, o que trouxe? De Paris, quais revelações? Conhecer uma cidade cosmopolita como Londres me acrescentou o quê? Estar acompanhada por dois pares de jovens e virgens olhos, cheios de vida, em que ampliou o meu par de olhos experientes, por vezes cansados da cruel repetição da precariedade humana, travestida em culturas distintas? Precariedade reconhecível, não importando o lugar, o tempo, a sofisticada tessitura da linguagem.

Comporto perguntas massudas, espessas, que me pesam a bagagem na volta. Bagagem que eu desfaço, lenta, para não deixar exalar o perfume dos momentos (e perdê-los para todo o sempre).

Viajo, e viajarei sempre, por não me querer estática, enrijecida, ressecada e pretensiosa. Não me é agradável sair da zona de conforto. Mas não me gosto se escudada na pretensão tola e fútil de que conheço ou conhecerei o que sequer imaginei conhecer. Viajar é uma prova ardente de que ainda não morri, parto de desconhecidas paragens do “mim”, do que poderia ter sido, do que sou e não sabia ser. Coleciono perdas e ganhos, coisa própria de ser mutante (perder ignorâncias também faz sangrar o coração).

Ato irreversível ao me tornar mãe do “mim” esconso, ao viajar eu ressurjo, depois de amarela e lúcida tristeza: metamorfoseio-me.

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