O instante existe

Por: Eny Miranda

“Se desmorono ou se edifico,/
se permaneço ou me desfaço,/-
não sei, não sei. Não sei se fico/
ou passo”.// Sei que canto.”
Cecília Meireles,
in Motivo


Maio abre suas portas e janelas. De repente, o espaço é tomado pelos hinos e humores do outono e pintado em cores de fruta madura. À tardinha, o céu é um enorme,luzente - e transparente! - tacho emborcado sobre o mundo, com uns restos de geleia de amora e de goiaba, deixados (por pouco tempo), em suas bordas, principalmente, e próximo a elas. A atmosfera é doce em fogão de lenha, calda em ponto de fio, caramelo. Tudo se doura, se aroma e se embebe em tal encanto e tais delícias que dá vontade de criar asas e arriscar voos: olhos muito abertos, narinas dilatadas, alma à disposição dos sentidos (ou vice-versa) e cesta na mão, já que o universo cheira a pomar em tempo de colheita e a cozinha de chão batido em casa de fazenda.

Nesta época, o temperamento da vida se transforma: sabiás rebrotam seus cantos, e laranjeiras amadurecem seus encantos; as madrepérolas preferem os mares lunares, e as águas terrenas irisam-se de céus. Da natureza, revigora-se a arte, com novas essências, novas tintas e novos pincéis. Há um rumor policrômico de luz, sensível nos traços impressionistas que refazem contornos e relevos a cada momento do dia.

E pensar que sou uma fração das pedras, das águas, das aves, das frutas, da luz... que enfeitam essa vida (ou que delas guardo uma preciosa fração). Pensar que uma mesma partícula-princípio continua sendo cerne de tudo; que entre cada fragmento de matéria existe uma interligação - temporal, inclusive.

(Há pouco tempo, recebi de uma amiga querida, apaixonada por esses bens - não tributáveis, contudo de altíssimo valor -, a gravação do que teria sido a voz do Big Bang, isto é, o som emitido pela energia liberada no momento da criação do Universo, há cerca de 14 bilhões de anos; som este que - diga-se de passagem, mas com ênfase - continua a reverberar no espaço).

E constatar que tais maravilhas, patentes manifestações dos preciosos - e não tributáveis - bens-comuns-a-todos, vêm-se tornando em sutilezas de tal modo sutis que passam despercebidas, ou, se percebidas, quando percebidas, são encaradas como o corriqueiro no mais corriqueiro do cotidiano. A cada dia, nossos olhos e almas parecem estar menos sensíveis às belezas livres dos estratagemas químicos, dos recursos tecnológicos, das artimanhas virtuais, acostumados que se tornaram ao artificial e ao artificioso. Mas não é para menos: somos assaltados cotidianamente pelo materialismo avassalador; chamados continuamente a apreciar as vantagens do último modelo das muitas modernidades que pipocam diante de nós a cada minuto; impelidos a acreditar na necessidade inadiável de dominar a mais recente minusculeza movida a olhar ou a pensamento, a assistir à propaganda desenfreada do útil e do fútil; induzidos a buscar “dicas” para competir cada vez mais e conquistar rapidamente o poder, muitas vezes, a qualquer custo; instigados a consumir e, paradoxalmente, a obter lucro em tudo.

Mas há alguns poucos olhos e almas cuja atenção ainda está voltada para aquelas sutilezas cada vez mais sutis que rebrotam sempre, e teimosamente, à revelia da vontade humana; para os detalhes menos perceptíveis a este mundo de modernidades irresistíveis; para instantes eternos. Esses olhos e almas são capazes de despender seus melhores momentos admirando a despedida de um dia luminoso de maio, a formação de um arco-íris na interseção entre água e luz, a melodia da brisa entre folhas - confluência de matéria e alma; capazes de inebriar-se com o límpido aroma - a alguns narizes quase imperceptível - emanado de uma flor que se abre; de capturar uma nota vinda não se sabe de onde, o eco de um som produzido há bilhões de anos - não para estudá-lo, simplesmente, mas para senti-lo, introjetá-lo e reconhecê-lo como parte de si mesmos. São aqueles seres, por uns, chamados de alienados, e, por outros, de poetas.

Mas, a contar o número, visivelmente decrescente, desses tipos excêntricos, eu me pergunto quantos maios naturalmente coloridos, perfumados e edulcorados a amora, a goiaba, a pomar em tempo de colheita (e seus ecos) serão motivo de registro, daqui a alguns anos.

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