O fotógrafo que virou anjo

Por: Chiachiri Filho

Franca já teve importantes fotógrafos de estúdio: o Galo, o Edward, o Wilson, o Fuentes, etc. Eram especialistas nas fotos 3x4. Porém, o rei dos instantâneos era o Jair. Nos bailes da A.E.C. ( Associação dos Empregados no Comércio de Franca) lá estava ele fotografando os pares enamorados. Na segunda-feira após o baile, as fotos ( em formato de tiras ) ficavam expostas em seu corredor situado no calçadão da Marechal Deodoro. As fotos comprometedoras desapareciam rapidamente. Às vezes, não havia tempo para o sumiço das fotos e as brigas entre casais eram inevitáveis.

Os Rigoleto instalaram-se no Edifício Sabino Loureiro. Vieram do Norte da África, da região conhecida por Eritreia, dominada pelos italianos, e com muito trabalho e caixas de maçã montaram o seu laboratório. Fotografavam também os bailes da AEC e lançaram com sucesso o binóculo colorido.

Elias Atiê comprou a Objetiva Social e dedicou-se a fotografar casamentos, solenidades, cerimônias. Baixinho, magrinho, agitado, fumante inveterado, era um estudioso das artes fotográficas e de outros assuntos. Certa feita, encontrei no balcão da Objetiva uma coleção do filósofo Bertrand Russel. Perguntei-lhe a razão daqueles livros e ele respondeu-me prontamente:

- É para preencherem minhas horas de descanso.

Elias Atiê era um perfeccionista. Procurava sempre o melhor ângulo, o melhor enquadramento para as suas fotos. Certa vez, ao registrar a mesa que presidia uma solenidade, ele se afastou tanto que foi cair no colo da professora Rosinha. Outra vez, durante um casamento em nossa Catedral, os assistentes ficaram surpresos com uma estranha movimentação no fundo e no alto do altar-mor, onde se aninhavam alguns anjos. Parecia que os anjos estavam batendo suas asinhas. Na verdade era o velho Elias com sua máquina fotográfica que procurava o melhor enquadramento para a noiva que entrava no templo.Assim era Elias Atiê, o fotógrafo por vocação, o assíduo leitor de Bertrand Russel em suas horas de lazer.

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