Um e outro

Por: Caio Porfirio

Quando li A luz no subsolo, de Lúcio Cardoso, palpitei. Esse jovem mineiro, de Curvelo, MG, que já publicara dois romances regionais —Maleita e Salgueiro —, acompanhando os regionalistas de trinta, do século que passou, surgia de repente, aos vinte e dois anos, com uma ficção impactante, de conflitos emocionais continuados. Que literatura era essa? Daí por diante acompanhei-lhe todos os passos. Já notara traços dessa mudança nos dois livros anteriores. Pensei que ficaria nisso. Seria a sua maneira de ficcionar. Não era. O seu impulso interior era outro, completamente diferente, que o terceiro livro traria a público. E essa envolvência criadora entraria em todas as suas criações para além dos romances: nas novelas, nas peças teatrais, nos diários, na tentativa cinematográfica . . . até ‘explodir’ com o monumental romance Crônicas da casa assassinada, obra volumosa e que merece ensaio à parte. Vítima de uma isquemia cerebral, ainda muito moço, aos cinquenta e poucos anos, deixou um romance inacabado — o viajante —, que, assim mesmo, foi publicado. Não podendo escrever, dedicou-se à pintura, que ele não viveria sem a Arte. Foi nesse estado que eu o conheci, no Rio de Janeiro, em visita curta e de poucas trocas de palavras. Um segundo derrame, poucos anos depois, levou-o para sempre.

Eu o admirava tanto quanto a Cornélio Pena. Este, mais dedicado às artes plásticas, deixou uma obra ficcional menor. Romances enxutos, estilo essencial de emoções bivalentes: contidas e expansivas. Apesar de toda a minha admiração por Lúcio Cardoso, elegi-o superior a esta. Quando Ricardo Ramos promoveu uma enquete para escolher os melhores romances publicados no século vinte, já próximo do findar destes, pus Fronteira, na frente de Crônica da casa assassinada, de Lúcio.

Escrevi até, num bar, tomando uma cerveja, um pequeno texto comparando os dois, que trago aqui a relevo:

‘Cornélio Pena vai mais longe, nos momentos de perplexidades arrebatadoras, entre ambientes e personagens, do que Lúcio Cardoso. É que Lúcio é instintivo; é que Cornélio é poético. É que Lúcio busca o entrechoque de ódios, a repulsa entre as personagens; é que Cornélio apenas expõe, com grande apuro no trato literário. É que Lúcio é o jogo lúdico de luz e sombra; é que Cornélio é essencial. Lúcio questiona conflitos, Cornélio constata. Lúcio vai às aflições humanas, Cornélio impassivelmente as capta. Lúcio é uma constante interpretação. Cornélio é um permanente tempo de espera. Em Lúcio as palavras são brilhantemente efervescentes; em Cornélio as palavras são mudas . . .

‘Há, entre um e outro, um traço de união em busca do cosmo interior. Em Lúcio há a perquirição, em Cornélio a evidência. Então a distância entre ambos também é muito grande. São caminhos ricamente convergentes e tremendamente divergentes.’

Esta a possível e pessoal comparação. Evidente que admiro grandes valores de nossa literatura, do passado ao presente, que todos eles têm — para me valer de uma expressão do escritor Rodolfo Konder — os ‘seus demônios’, dos ficcionistas menores aos do primeiro plano. Tal prova é que, sem busca de originalidade, sigo por minhas veredas e não consigo me livrar dos meus demônios.

A Arte Literária não é mesmo uma ‘fascinação fascinante’, para não dizer uma loucura?

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