Na carneira

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O homem veste camisa de manga comprida e calças jeans. Suas botinas são quase novas, mas é o chapéu enorme que distingue sua figura em meio às muitas pessoas que descem dos ônibus e obedecem às setas orientando o caminho de saída da Estação Rodoviária. Já na calçada, olha indeciso para os lados, até ouvir uma voz.

- Precisa de táxi?

- Tudo isso é automóvel de aluguel?

- É. Pega o primeiro da fila.

Pede licença, entra, senta-se no banco traseiro do táxi. O motorista, muito jovem, arranca velozmente, depois indaga:

- Pra onde?

- Estou indo lá pro bairro do Liborace.

- É Leporace.

- Pois é, foi isso que eu disse, uai.

Enquanto cruzam ruas e bairros, a curiosidade passeia por todo o para-brisa e por todas as janelas. De repente, os olhos espantados com o número e a velocidade dos veículos que desaparecem sob o pontilhão são despertos pela indagação.

- Leporace l, 2 ou 3?

- Hein?

- Quero saber o endereço.

-Ah, sei. Está aqui na carteira.

A mão vasculha incrédula o bolso traseiro direito das calças, depois os bolsos laterais. Estão vazios. Apenas um lenço se encontra no bolso esquerdo. E a voz do homem troveja no carro.

- Nossa... Meu Deus... perdi a carteira...

- Pra cima de mim, não... Eu te arrebento, cara.

- Meu Deus... perdi a carteira... Será que....?

Proferindo pragas e palavrões, o taxista acelera, daí a pouco começa a buzinar, pára em frente ao Distrito Policial do bairro. Nem desligou o carro e já um jovem se aproxima, com a mão direita próxima da arma.

- Que que ta acontecendo?

- Mais um malandro... não quer pagar a corrida.

Antes que possa contestar, o passageiro é retirado do carro, introduzido numa sala, é revistado minuciosamente. Até a botina obrigam-no a descalçar.

- Que é isso na sacola?

- Uai, é um queijo e um pacote de goiabada. A Bida mandou pro Clesinho. Mas o moço pode ficar com o queijo pra pagar a corrida.

- Eu quero é meu dinheiro. Está me achando com cara de trouxa?

- Mas, a carteira sumiu.

Da sala ao lado, o delegado de plantão ouvira tudo. Aproxima-se, assume o interrogatório.

- Como é seu nome?

-É Clé... quer dizer... todo mundo me chama de Clé. Na certidão de batismo é Euclésio Jesuíno, mas é muito difícil... Então todo mundo me chamam de Clé.

- Onde você mora?

- Eu moro duas léguas pra lá do Zóio d´água.

- Isso fica no município de São José da Bela Vista?

- Isso eu não sei, não senhor. Sei que o Zóio d´água fica na metade da estrada de Delfinópolis pro Glória.

- Ah, isso é lá em Minas Gerais.

- Isso, é isso mesmo. O senhor conhece? Pode perguntar lá... todo mundo me conhece naquela beirada de serra e naquela beirada de Rio Grande.

- Onde você estava indo de táxi?

- Uai, o chofer tava me levando na casa do meu filho.

- E você sabe onde ele mora?

- Eu já fui lá só uma vez, mas foi o chofer de praça que me levou. Sei que a casa é branca e tem uma caixa d´água em cima.

- Você sabe onde seu filho trabalha?

- Sei sim, uai. O Clesinho trabalha numa fábrica de sapato. Falam que é uma fábrica grandona.

O delegado coça a cabeça, vira para o taxista, aconselha:

- - Fica com o queijo, fica.

Em seguida, a autoridade pega o telefone, faz ligações. Primeiramente, para a Guarda Municipal, solicitando viatura. Depois, fala com a assistente social, lotada no Abrigo Provisório, dá instruções.

Duas horas mais tarde, o cidadão Euclésio Jesuíno é colocado dentro de um ônibus que parte para Minas Gerais. As advertências do homem fardado são rudes.

- Se voltar aqui, come cadeia.

O olhar disfarçado dos demais passageiros queima o rosto queimado de sol do cidadão Euclésio Jesuíno, enquanto ele caminha até o solitário último banco. Desolado, enxergando apenas o bico da botina, deixa a mão direita girar o chapéu, cuja copa está segura pela mão esquerda. O movimento mecânico é, de súbito, interrompido por choque. Os dedos calejados são picados por cascavel, ao tocar a saliência: elevação minúscula na carneira faixa de couro destinada a proteger a parte externa do chapéu do suor da cabeça e da testa.

A mão ávida retira da carneira o endereço e duas notas de cinqüenta reais, mais duas de dez e uma de vinte. Nervosamente, enfia tudo no bolso lateral direito da calça.

- Virge Maria... Virge Maria.. A Bida falou que tinha muito roubo... falou que era pra ter cuidado com o dinheiro, com o endereço...

As duas mãos calejadas seguram o chapéu diante do rosto.Gesto inútil, o do homem.

Ninguém no coletivo se interessa pelo passageiro do último banco, nem por seus olhos molhados.

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