“Ah, folha em branco!”

Por: Eny Miranda

Hoje, o peso dessa expressão gasta cai no leito seco de minhas águas criativas como, vindas do espaço, as quase seis toneladas da Pedra do Bendegó caíram, em dia longínquo, sobre o solo baiano, cavando nele uma enorme cratera.

Exagero? Talvez...

O certo é que olho a tela - minha folha - e nada me vem, nada me brota. Isso vai gerando em mim uma sensação de angústia, de inabilidade; uma pressão no peito, como peso de pedra despencada, gerando espaço sem vida, oco, estéril. Sinto que ela também me olha (a tela): olhar frio, níveo, inquiridor... (Ou seria indiferente? Indiferente à minha aflição, à minha quase agonia?). Angustio-me, porque ela parece saber que sequer estou, como o Poeta, com um verso cá dentro, inquieto, vivo, que não quer sair; parece saber que estou, sim, igual a ela mesma, à minha impassível inquiridora: em branco. E não é apenas isso que me confrange. Minha sensação é ainda mais dolorosa porque me sinto ignorada, menosprezada não pela tela, mas pelo verbo - minha paixão, não correspondida.

Invoco todas as letras. Anseio-as à minha frente, encadeando-se em palavras e frases, envolvendo-me na sintaxe do mútuo amor; criando comigo textos inteiros. Com elas, quero prender na folha a água e o vento; cristalizar no tempo formas voláteis - consubstanciar vida e poesia. Com esses signos mágicos, quero trazer sóis e luas e estrelas à branca, plana, insensível superfície que me olha; encantá-la com mares e ares e penhas e astros, com impressäes e expressäes de mundo arado vialacteando mil curvas e traços e espaços - sementes de luz plantadas no cavo poético que, agora, me habita e me oprime.

Mas, como? Como enlaçar a brisa, eternizar a tarde, enraizar a pétala e a nuvem e a asa da borboleta?

Continuamos nos encarando, eu e a tela, a tela e eu, quedadas neste leito seco, enquanto em muitas almas poetas o outono continua sendo, gerindo, gerando. Aderido à substância do verbo, vai rebrotando por todos os lados, em banhos de riacho, tangerinas maduras, balé de estorninhos, beijos de colibris, restinhos de sol poente, cantigas de roda, caramelos, geleias de amora...

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