Olé!

Por: Maria Luiza Salomão

210623

O cinema francês, tido como cinema-cabeça, parado, está mudando. As Mulheres do sexto andar, 2011, comédia social, tem leveza e vitalidade no tema da integração europeia (espanhóis e franceses), anos 60, atraindo dois milhões de espectadores. Le Guay, o diretor, escreveu a história e conta que seria altamente improvável que as empregadas espanholas morassem no sexto andar do mesmo edifício do proprietário, mas que pôde, assim, recriar comicamente as interrelações entre as mulheres espanholas que imigraram para a França (a fugir da ditadura de Franco), e a cultura francesa blasé no período, afetada e distante, alienada.

Trabalhando como empregadas domésticas, as espanholas se agrupam em uma “confraria” de mulheres, solidárias entre si, vivem como uma família, um gueto, no sexto andar, acima dos empregadores (uma metáfora?). A mulher de Jean-Louis, corretor da bolsa de valores, emprega Maria, a espanhola do sexto andar, depois da demissão da empregada bretã.

Alguns indícios caracterizam o protagonista Jean-Louis como um homem que não teve, quando criança, a atenção carinhosa da mãe e também não parece ter tido melhor sorte com a esposa, fria e distante, e nem com a empregada bretã, que o trata como a mãe o tratava, antes de morrer. Interessante ser ele um corretor da bolsa, um investidor, ou seja, um homem que corre riscos. Aparentemente conservador e convencional, Jean-Louis sente-se atraído por Maria que lhe prepara um ovo ao seu gosto, no tempo correto, quatro minutos e meio, o que não fazia a empregada bretã, como demonstração odienta, explícita, de poder sobre o patrão. Através de Maria, Jean-Louis passa a conviver com a “confraria” alegre, robusta, altiva, das espanholas que ali vivem como uma comunidade. Sente-se, no meio delas, como se estivesse em uma calorosa família, família que não teve até então na família de origem, nem na que formou.

A esposa de Jean-Louis, que leva “vida de madame”, sequer imaginou que o marido pudesse se interessar por mulheres como as espanholas. Ela se inferioriza, considera-se mulher “da província”, e tenta imitar as amigas parisientes, mostrando-se blasé, “fake”, atitude que já esteve na moda. Segundo Georg Simmel, ‘A essência do caráter blasé é o embotamento frente à distinção das coisas; não no sentido de que elas não sejam percebidas, como no caso dos parvos, mas sim de tal modo que o significado e o valor da distinção das coisas, e com isso das próprias coisas, são sentidos como nulos’.

Georg Simmel criou a microssociologia, influenciando Walter Benjamim, Lukács, Manheim, mostrando que o dinheiro é o deus da vida moderna, tudo gira em torno dele e ele faz o mundo girar, caracterizando os traços sociais de nossa época -a aceleração do tempo, a monetarização das relações sociais, a ampliação dos mercados, a racionalização e a quantificação da vida e a inversão de meios e fins. Hoje, mais do que uma sociedade de produção, temos uma sociedade de consumo onde coisas são mais importantes que a pessoa, quase reduzida a um autômato, coisa. A mulher de Jean-Louis e suas amigas refletem essa atitude, sintetizada na expressão francesa blasé - e no sentido dado por Simmel (1858-1918).

Jean-Louis é curioso e atento ao mundo. Percebe a rotina da mulher (a recíproca não é verdadeira), e se interessa pela vida difícil das espanholas, que passa a admirar, a ponto de querer conviver com elas no sexto andar, e separar-se da mulher. Jean-Louis não é indiferente (blasé) à força vital das espanholas que lutam pela vida (como em uma “guerra”), sozinhas, afastadas da família, e sabem do valor da sua cultura, mantendo-se unidas na preservação do seu espaço de dignidade.

Jean-Louis parece aprender com elas a ser digno, no seu “pequeno palácio” no sexto andar - só seu -, comer o que lhe apetece, conviver com quem lhe corresponde a atenção e a delicadeza que é capaz de oferecer.

Filme gostoso, sessão da tarde, mas que nos acorda para a vida possível simples, da qual se possa orgulhar. Poder assumir um caráter oposto ao blasé (que debocha, despreza o não “monetarizável”), destruir o altar ao deus dinheiro, é condição para abrirmos os olhos às “novidades” do mundo a habitarem, gratuitas, o nosso próprio e singular andar...


DIRETOR

PHILLIPE LE GUAY

Diretor, escritor, roteirista francês, 56 anos, bastante respeitado no meio cinematográfico e televisivo, sua filmografia é a de um eclético, com títulos que vão do drama à comédia. Considera Molière um gênio. Na TV produziu Rhésus Romeo, 1993; V comme Vian, L´Écume des Jours”, biografia de Boris Vian.

Quando criança, Philippe soube de vários amigos que tiveram, como ele, babá espanhola, anos 60, resultado da imigração de 100.000 mulheres espanholas durante a ditadura sangrenta do General Franco, morto em 1975. Algumas retornaram à Espanha, outras permaneceram na França.

Le Guay escolheu o ator Frabice Lucchini como protagonista (Monsieur Jean-Louis) por refletir uma inocência, curiosidade. Le Guay se apoia na sua infância, no seu interesse pela cultura espanhola, música e comida, e a sensualidade que mescla violência e orgulho, segundo suas palavras. Natalie Verbeke, que faz Maria, a empregada espanhola pela qual Jean-Louis se apaixona, foi escolhida por exibir o tal orgulho espanhol que, segundo o diretor, a faz crescer na tela, no percurso do filme.

Le Guay comenta o tema do filme aqui resenhado: o filme trata menos da luta entre classes sociais, e mais da questão que se vincula à integração do “estrangeiro”. Se fizesse um filme sobre as empregadas portuguesas, diz, seria outro filme, completamente diferente. As espanholas flertam com a arrogância, opina, e as portuguesas (são milhares em Paris, e ao redor de Paris, hoje) são pessoas amigas, e já fazem parte da vida social francesa.

Serviço
Título: As Mulheres do Sexto Andar
Direção: Philippe Le Guay
Gênero: Comédia (com jeito de tragédia)
Duração: 104 min
Atores: Fabrice Luchini, Sandrine Kiberlain, Natalia Verbeke, Carmem Maura, Lola Dueñas
Onde: Hoje, 15 horas, sede campestre do Centro Médico
 

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