O homem calado

Por: Vanessa Maranha

210624

Os dias das primícias ainda corriam pálidos, tateando reinício, flores de Iemanjá dormidas, murchas, regurgitadas pelo mar, esse voluntarioso. Latas, garrafas, pulseiras, alianças sem par, o desamparo das coisas descartadas ou o pressuroso das coisas oferecidas em espera de recompensas que o oceano não engolia.

Nesses dias, amotinadas, aos grupos, as palavras de Paulo se foram como se mar ele fosse e as tivesse vomitado, ainda não se saberá. Não é que houvesse se esquecido dos seus significados, mas, à língua, elas perdiam, pouco a pouco, o sentido. Água, copo, mesa. Não podia mais dizer sequer o básico.

Ainda se formavam dentro e podiam mesmo ser escritas, mas, não saíam, talvez cansadas, gastas, quem sabe?, esfarrapadas de tantas guerras: palavras-navalha; palavras-canhão; palavras-dissimuladas, aquelas últimas, sôfregas, de saída: palavras-de-engano quando ele por fim desejou dizer o indizível.

Restava-lhe a voz, pensava, e com ela, poderia reaprender os vocábulos perdidos. Mas, a verdade é que, de súbito, nem esta. Tentava então capitular: o que me trouxe até aqui, assim, a palavra desaparecida, voz engolfada?

Imediatamente pensava em olhos, inúmeros, contradizentes, olhos-de-bem-olhar, olhos-de-mal-dizer; os perscrutadores; os duros; os de amparo. Confundia-se todo às intenções.

Pois agora, o mais que tentasse, a voz não saía. Permanecia fundamente presa dentro de Paulo. Rodeava vísceras, encontrava subida à garganta, chegava a ser quase menção de desabafo, arredondando-se em expressão de sinceridade, só que não, não saía. Volteava resignada adentro e abaixo para triste de novo descansar no mais baixo das geografias interiores desse homem calado.

Continuava ele, contudo, na sua lida que sempre fora silenciosa, pensamentos que só pediam concentração e exatidão. Ninguém no seu trabalho acusou a ausência das palavras em Paulo, porque essas nele, ao convívio, já antigamente quase não eram. Monossilábico que sempre se colocara, acabou se aperfeiçoando na arte de soprar fiapos restantes de voz que com muito custo içava das suas funduras: Ohs! Ahs! Hums! Hãs?, estratégicos meneios de cabeça; os afirmativos; os negativos; os de dúvida.

Ofícios por e-mails aos colegas de trabalho acabaram por cumprir a função da fala profissional, fazendo protelar a percepção alheia de que algo estranho e lamentável se passava ali: um homem que engolira as palavras.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras