O curioso caso no Lar de Orates

Por: Everton de Paula

Havia na cidade de C... uma casa de assistência a doentes mentais, mantida por um colegiado de freiras que abandonaram a clausura de uma irmandade católica e se dedicaram, literalmente de corpo e alma, à prestação de obras assistenciais, com a ajuda oficial da municipalidade e de alguns clubes de serviço.

Era notável o número de sócios que colaboravam para minorar o sofrimento dos internados. Entre esses sócios havia Dagoberto, funcionário público aposentado, viúvo e sem filhos. Morava sozinho perto da pensão familiar Cantinho da Nona, onde se alimentava.

Não entro em mais detalhes porque não os sei. Apenas relato o que me contaram num bar, em noite chuvosa.

Fiquei sabendo que numa tarde quente de janeiro, Dagoberto sentiu-se inclinado a visitar o Lar de Orates, a que destinava ajuda com pacotes de macarrão, latas de óleo e preces.

Foi recebido por uma assistente social que o orientou sobre quais pavilhões podia visitar. Era mister que se usasse crachá para identificação na hora da saída. Mas crachá não havia; o sistema estava sendo substituído por identificação digital. Moderno esse manicômio, hein? A recepcionista disse a Dagoberto que, na saída, chamasse por ela, Helena, que tudo se arranjaria.

Abriram um, dois, três portões trancados por grossos e confiáveis cadeados. Dagoberto entrou e Helena, esquecidinha e muito ocupada, não avisou funcionário algum da visita.

Como os internos não vestiam uniforme, Dagoberto infiltrou-se entre eles no pátio, de forma que sua individualidade se diluiu entre os doentes mentais. Não havia mais como saber quem era quem.

O tempo ficou feio. Caiu uma chuva tal que danificou a única ponte de ligação entre a cidade e o Lar de Orates.

Sucede que na capela dos pavilhões visitados por nosso bom e míope Dagoberto, jazia o defunto de um dos internos, envolto a flores murchas e papéis de jornal. O corpo, de tão miúdo, sumia no caixão. A funerária havia telefonado avisando que o enterro só seria realizado na tarde seguinte, pois estavam à espera da restauração da ponte. E lá ficou o morto, exposto às lamentações sem sentido de uns poucos doentes.

Dagoberto julgou ser o momento de encerrar a visita e ir embora. Bateu uma canequinha de alumínio, que estava jogada ao pé do terceiro portão, e gritou:

- Ei, me tirem daqui!

Cena clássica esta! Os assistentes e as freirinhas o olharam com um sorriso bondoso e seguiram caminho. É claro, julgaram-no um louco a mais.

Dagoberto pressentiu a perigosa situação e começou a berrar feito um doido:

- Ei, eu não sou louco não, estou aqui de passagem. Me tirem daqui. Eu quero sair. Perguntem à Helena!

Mas Helena, a recepcionista esquecidinha, já tinha ido embora, antes mesmo de a ponte desmoronar. E agora, nem as linhas telefônicas funcionavam. Não, nem pense o leitor em celulares: eles não haviam ainda sido inventados. Esqueci-me de contar que corria o ano de 1968.

Depois de muito gritar inutilmente, veio-lhe a certeza de que não o tirariam dali tão cedo. Apenas ouviu algumas freiras no corredor dizendo algo parecido a que levariam o corpo do falecido para a sala contígua à recepção a fim de que os internados pudessem dormir longe de impressões e receios insanos.

Era sua chance. Dagoberto correu à capela, expulsou dois internos sem dentes e olhares indistintos. Em rápidos, silenciosos e cuidadosos movimentos, retirou o frágil e pequeno corpo do defunto, deitou-o atrás do altar de modo a deixá-lo escondido. Ajeitou-se em seu lugar e ali se aquietou, sem os óculos, fingindo de morto, encobrindo-se de flores murchas e folhas amassadas de jornal.

Depois foi tudo muito rápido. Vieram as freiras e um homem que tampou o caixão, sem ferrolhos, e o levaram à sala próxima à recepção.

Não sei bem como se deu a fuga de Dagoberto. Sei apenas que a pequena cidade de C... até hoje se pergunta: como é que o defunto saíra do caixão e fora deitar-se atrás do altar da capela, passando por três portões trancados por grossos e confiáveis cadeados.

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