O que vemos e ouvimos...

Por: Jane Mahalem do Amaral

Os Upanishads são parte das escrituras hindus que discutem, principalmente, filosofia e meditação. São 123 livros considerados básicos por todos os hinduístas. Essas escrituras podem ter sido elaboradas há 14 séculos antes de Cristo, conforme constam as pesquisas dos estudiosos. O interessante é notar que, quando nos deparamos com esses ensinamentos milenares, observamos que tudo serve para os dias de hoje. Impressiona profundamente pensar que o ser humano, tal qual o conhecemos, não mudou muito na sua essência. Claro que não se nega a evolução em vários outros segmentos, mas aquilo que ainda precisamos aprender caminhou quase que intactoao longo dos séculos.

E então vieram Buda, Krishna, Tao, Maomé, Jesus Cristo e, cada um, na sua linguagem, ensina, reforça e aprofunda os mesmos ensinamentos. Será que o homem, habitante deste planeta, sempre viveu em tempos de cegueira e surdez? Nos dias de hoje, percebemos, claramente, que perdemos a escuta e o olhar. Passamos apenas a usar os sentidos orgânicos da visão e audição.

Nosso olhar tem uma função estruturante, que modela aquilo que vê. Assim, se ele for redutor e sombrio, também nós nos tornaremos aquilo para o qual dominantemente olhamos. Nossa escuta muitas vezes é surda aos verdadeiros significados, e também assim vamos modelando nossos ouvidos, apenas para os repetitivos condicionamentos a que nos acostumamos. O grande perigo é esse mesmo: deixar de olhar com olhos novos e deixar de ouvir com ouvidos perguntadores. Já dizia Fernando Pessoa: “Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”. Mas podemos nos perguntar: Como? A mídia não nos traz, diariamente, novidades? As lojas, os shoppings, a moda não nos oferecem seguidamente coisas novas e diferentes? Sim, é verdade. Mas elas apenas alimentam esse olhar estreito e minimizado. Não aguçam nossa escuta para o interpretativo e afogam nossos ouvidos nos sons que condicionam e perturbam. E então o inusitado nos escapa. Estamos perdendo o deslumbramento, o espanto essencial. Estamos nas trilhas do caminho viciado e repetitivo. E vamos nos tornando, a cada dia, mais esquecidos do verdadeiro sentido da Vida, das questões que podem nos colocar com os olhos mais abertos e os ouvidos mais presentes.

Voltando aos Upanishads. Esse termo deriva das palavras upa (‘perto’), ni (‘embaixo’) e chad (‘sentar’), representando o ato de sentar-se no chão, próximo a um mestre espiritual, para receber instrução.

Quem são nossos mestres espirituais? De quem estamos tão próximos? Quem nos inspira confiança a ponto de nos sentarmos aos seus pés? A quem podemos ouvir com ouvidos novos? Seria a televisão com suas novelas e seus jornais sangrentos que se tornaram um dos nossos mestres? Ou seria a internet com suas múltiplas opções que transformam nossos olhos e ouvidos num processo alienante e multiplicam nossos dedos em um digitar contínuo e doentio?

“O que buscais? A quem buscais?” , ouvi recentemente de um grande mestre e isso se revelou para mim em uma contínua reflexão.

Quero terminar também com os Upanishads: “Os pensamentos de uma pessoa são seu mundo. O que uma pessoa pensa é o que ela se torna. Este é o eterno mistério”.

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