Na banca

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Os olhos treinados do proprietário fotografam, num átimo, as letras DIG, desenhadas na porta do carro que estaciona próximo à banca de jornais e revistas. Passagens desagradáveis presentes ainda promovem tradução instantânea da sigla: Delegacia de Investigações Gerais. Por isso, ao ver um rapaz descer do carro e se postar diante da banca, examinando com os olhos os frequentadores do lugar, Canchinha interrompe o apontamento no bloco de papel, disfarça, tenta fazer o cliente compreender o perigo que ronda a vida pacata de honestos cidadãos.

O freguês não capta signos nem sinais. Quer é confirmação:

- Do primeiro ao quinto, né?

- É... é... do primeiro ao quinto... todos os pagamentos são iguais...

Enquanto fala, o Canchinha arqueia as sobrancelhas, faz sinais com as rugas da testa, com os olhos, com os lábios, com os ombros. Nada disso, porém, acorda a inocência do apostador.

- Não tô entendendo nada... Que que foi? Está sentindo alguma coisa?

- Não, não... Tudo bem... A medida é aquilo que eu te falei: dez metros de frente e quinze de fundo. Olha aqui o desenho.

E Canchinha tenta fazer de conta que o bloco de assentamento do jogo-do-bicho é prancheta minúscula. O freguês olha espantado para o desenho mal feito, um meio retângulo, parecendo quadrado.

- Uai, não tô entendendo... Que que é isso?

- O terreno.

- Terreno, que terreno?

- O terreno que o Ronan quer te vender.

- Você está ficando doido, Canchinha.

- E você é um jumento. Não viu que o cara que tava parado aí na frente é investigador?

- Investigador? E eu com isso? Não devo nada pra ele...

A sorte é que, nessa hora, o Ronan grita reclamação:

- Ô Canchinha, essa cerveja tá quente.

- Então, sopra, pô. Não vai dizer depois que eu sou culpado de você queimar a língua.

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