O fogo do ciúme

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A vida do casal era cheia de turbulências. Ele, embora fosse muito teimoso, vivia tranquilo, não se irritava com nada. Ela, altiva, temperamento forte, dramática, ciumenta, sofria sem necessidade, pois existia amor entre eles, apesar das diferenças. Áurea vivia agrilhoada aos excessivos afazeres domésticos. Cuidava da família e fazia artísticos trabalhos manuais. Lastimava-se da falta de reconhecimento, de atenção e de carinho do esposo. Ele permanecia calmo e indiferente.

Naquela época, a mulher não tinha a liberdade que tem hoje, nem televisão havia. O homem, ao contrário, era livre, podia ir aonde quisesse. Não era o caso de Vitor, pois Áurea, sua esposa, controlava sua vida e o trazia ao pé de si.

Certo domingo, quando um importante jogo de futebol aconteceu na cidade, convidado com insistência por um filho, ele ousou aceitar o convite e foi. Áurea não se conformou. Sentimentos inquietantes de raiva, ciúme, insegurança e de posse ameaçada a envolveram de forma dominadora e ela sucumbiu a eles, deixando-se levar naquela avalanche de emoções perturbadoras. Pegou algumas fotos dele e dos dois juntos e queimou-as, na pia do banheiro, perto de um cesto de vime, onde se guardavam roupas usadas. Uma fagulha caiu na tampa do cesto e este se incendiou. As chamas do fogo alcançaram uma porta ao lado que começou a queimar. Como a água estava perto, com um balde e a ajuda de um filho menor, ela conseguiu conter o ímpeto do fogo e os danos não foram muito grandes. Assustada, tomada por sentimentos dolorosos e complexos como culpa, arrependimento, revolta, esperou o marido chegar. Como ele não era dominado pelas emoções como ela, entendeu e, ainda, sorriu da situação. Observando melhor os resíduos do fogo ela viu seu relógio de ouro, da marca suíça Ômega, uma das poucas preciosidades que possuía, totalmente queimado. Passou um bom tempo, mais calma, entre arrependida e pesarosa, mas o ciúme a acompanhou até a morte, se é que não a provocou prematuramente.

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