Problematizando o senso comum

Por: Maria Luiza Salomão

As pessoas navegam segundo uma forma de apreensão das coisas, e ela pode diferir de uma para outra. O chamado “senso comum” nem sempre nos ajuda a conviver com as diferenças, embora ele exista justamente para criar pontes de comunicação. NO entanto, o senso comum pode tornar cega, surda e paralítica a pessoa que mais interessa, ela mesma. E o que é pior, em relação ao que a melhor caracteriza.

Aquele que sente a vida amara torna suas palavras amaras, seu olhar derrama invisíveis e acres lágrimas. O da vida ácida derrama sua muda acidez: em gesto, careta, olhar-faísca; o sorriso zombeteiro gera uma expectativa de choque. Há uma doçura monotônica que enjoa; o doce - se excessivo enfara, acidula, gera vontade do amargo.

(Mistério sensual do excessivo, que busca o seu contrário.)

O salgado colore o que é cinza, insípido; de menos ele é mais: tempera, mas se de mais, só ele reina. A pimenta chama a hora de a “onça beber água”, mas pode calcinar a percepção, enchendo os olhos de involuntárias lágrimas.

Ninguém é totalmente amargo, doce, ácido, salgado, apimentado. Harmonizar os sensos em si, entre si, é arte. Saber das pessoas pelo sabor de suas palavras e silêncios é arte.

Sensos pensados são anárquicos, quer dizer, quando sopesados no caroço da coisa tornam-se diferenciados, não comuns, têm propensão para a autonomia e não para pasteurização.

Tedioso é querer criar padrão: “amargo é sabor profundo”; ou para saber da “vida como ela é, urge ser... ácido”; ou “para ser novo tem que ser apimentado”; ou “para chamar a atenção é preciso ser salgado”.

Quem disse?

É trabalhoso cultivar senso próprio. Cada “terroir” produz um vinho próprio, a terra diz de sua fecunda heterogeneidade. Quer dizer, a literatura cria diferentes autores para diferentes leitores, a vida está aí para quem pode degustar, segundo seu senso, não comum, mas próprio.

No tempero da vida, a dose certa do sabor está na incerta procura do saber para a pessoa insólita.

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