Maridos desajeitados também dão jeito

Por: Everton de Paula

Qualquer casa habitada, seja castelo ou choupana, palácio ou espelunca, está sempre caindo aos pedaços, depois de alguns anos de uso. As maçanetas soltam-se das portas, as torneiras gotejam, a camada de tinta a óleo no teto dos banheiros começa a desprender-se, as lâmpadas queimam, o reboco começa a cair, há sempre uma telha solta, o sinteco já não tem mais o mesmo brilho, o piso frio desgasta-se... Isto sem falar dos móveis, pois que as camas rangem, o sofá apresenta rasgos aqui e ali, a mesa perde o prumo...

Não é desmazelo por parte dos que habitam a casa, isto sempre acontece mais cedo ou mais tarde. E se não fosse assim, o que seria dos pedreiros e das empresas que reformam construções?

As mulheres se incomodam muito com essas coisas, pois são um sexo irrequieto e exigente e querem ver as coisas consertadas. Já e já ! Querem que os homens, os pobres dos maridos, consertem tudo sem deixar um vestígio de sujeira enquanto tentam arrumar as coisas. Algo parecido a ir para o céu sem morrer. Alguns ferramenteiros espertos, desses que consertam coisas miúdas e diversas, já arranjaram um slogan para os seus serviços: “Marido de aluguel”. Boa essa: o divertido está no sentido ambíguo da frase, mas geralmente são pessoas de boa-fé, confiáveis, respeitadores, e só enfiam a chave na fenda que realmente necessita de reparo. E a coisa se espalhou pela cidade inteira. Em cada bairro há um “salvador da pátria”, ou do lar, se assim quiserem.

Mas mulheres querem tudo consertado imediatamente, embora saibam quanto tempo se leva para conseguir que um homem venha à casa da gente consertar uma coisa e cobrar uma fortuna. Aí, elas se voltam para a segunda solução o homem que já está na casa, o marido que tenta disfarçar, fazendo-se de desentendido e olhando para um lugar imaginário. Isto pode ser uma idéia muito boa, ou muito má, dependendo do tipo de marido que elas tenham.

Existem homens para quem os trabalhos caseiros são um verdadeiro prazer. A um simples toque, as torneiras param de pingar, as lâmpadas voltam a acender, as maçanetas ficam firmes no lugar, as portas param de ranger. Um homem desses nunca perde uma ferramenta, sempre limpa o pincel de tinta, sempre guarda todas as coisas nos seus devidos lugares após o conserto e sempre assobia enquanto trabalha (isto é o mais revoltante!). A mulher e os filhos não o veem muito, porque ele está sempre fazendo algum serviço, mas ouvem o seu assobio e isto é um delicioso conforto!

Depois, há o outro tipo de homem, o que não é jeitoso. Para ele os serviços caseiros são um pesadelo interminável de pregos que se entortam, de tábuas de porta que racham, de ferramentas que se perdem. Ele transforma uma simples torneira que goteja numa catástrofe hidráulica. Ele nunca assobia quando trabalha: os ruídos que ele faz, ou melhor, as palavras que ele berra são impróprias para os ouvidos de sua família.

Embora todos os maridos sejam diferentes, quando se trata de serviços em casa, as mulheres, em sua maioria, são iguais ao insistirem na ilusão de que, de algum modo, o homem jeitoso é mais homem.

Nada poderia estar mais longe da verdade!

Não há necessidade de um homem se engalanar com martelos, pregos e fita isolante para provar a sua masculinidade. Ora essa, que bobagem! Na verdade, se a mulher do homem sem jeito o animar a esquecer as ferramentas e voltar-se para os outros meios que existem para fazer o serviço, ela terá a emoção de vê-lo transformar-se diante de seus olhos de um desajeitado incompetente num estrategista astuto.

Não está escrito em lugar algum que “Os homens são para consertar coisas e as mulheres são para admirá-los por isso.”

A semana passada, a máquina de lavar de um vizinho deu um suspiro e parou. Quando as ameaças e súplicas da mulher não conseguiram interessar o consertador, ela voltou-se desesperada para o marido: Diz ele que só pode vir na semana que vem.

Adolfo, o marido, nosso vizinho e amigo, que me contaria a história poucos dias depois, tranquilamente pegou o telefone e disse: Esta época do ano é de muito movimento para você, não é? disse ele compreensivamente ao consertador. Pra dizer a verdade, acho que nem vale a pena consertar desta vez. Vou chamar outro consertador, o Zé das Porcas. Ele não chega aos pés de você, para consertos, mas tem algumas máquinas de lavar novinhas para vender...

A voz do outro lado respondeu em tom urgente e Adolfo encolheu os ombros: Bem, você pode vir vê-la se quiser... Esta tarde? Ah, agora mesmo? Está bem, está muito bem.

Quinze minutos depois de haver consertado a máquina de lavar, o consertador partia, espantado, levando os agradecimentos sinceros do nosso vizinho Adolfo. A máquina voltara a funcionar animadamente...

Depois desse episódio narrado por meu amigo, eu, um desajeitado por natureza, passei um bom tempo admirando algumas das coisas agradáveis que há para fazer numa casa além de simples consertos.

Como a maioria das esposas há de concordar, realmente é melhor ter um marido estratégico e inteligente à mão do que ter um marido jeitoso, sempre ocupado em serviços intermináveis.

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