A faxineira

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Maria morrera. Sem grandes comoções, sem homenagens, velório simples. A morte viera discretamente, silenciosamente, quase que despercebida. Assim também fora sua vida, quase uma “não-vida”, mais uma entre tantos da prole, mais um entre tantos pobres que a gente vê, e quase não enxerga, por aí.

Maria morrera. E foi de mala e cuia direto pro Céu. Uma vida de fome e pobreza fez com que as duas, mala e cuia, lhe fossem leves na gloriosa subida.

Maria morrera e fora pro Céu. Com os Evangélicos aprendeu que era merecedora daquele Paraíso; com os Católicos, que aquele senhor barbudo com uma chave na mão era São Pedro guardando as portas do Céu e convidando-a a entrar; com os Espíritas, que tinha cumprido sua missão e quem sabe em breve retornaria à Terra para uma nova vida. E isto, mais do que tudo de lindo que agora vislumbrava, era o que mais a inquietava:

- Caro São Pedro disse respeitosamente sei que ainda é cedo, mas gostaria de falar com Deus.

- Claro, minha irmã respondeu amorosamente o santo. Tá vendo aquele edifício branco, bonito, lá no final daquela alameda toda arborizada? Lá você vai encontrar Deus.

Maria agradeceu São Pedro e partiu apressadamente em direção ao belo prédio. Estava em seus planos pleitear junto ao Pai que, se tivesse uma nova vida, que voltasse à Terra como um cientista, um doutor ou um poderoso; enfim, que voltasse numa condição melhor para que assim pudesse ajudar mais a Humanidade. Sempre tivera este desejo em seu espírito fraternal, mas que, na condição miserável de sua última existência, pouco pode fazer.

Em frente ao grande edifício ficou admirada com toda sua beleza, seu brilho, seus jardins bem cuidados. Portas automáticas se abriram e, sabendo ser merecedora, Maria entrou.

No amplo salão da entrada Maria pensou: “Estranho, não tem ninguém aqui, só a faxineira, vou sentar e aguardar, alguém deve aparecer pra me atender.”

A faxineira enquanto trabalhava assobiava uma alegre canção. Maria, sentada, esperava.

Primeira hora. A faxineira trocou a lâmpada principal do teto, desceu ligeiramente da escada, apertou o interruptor e deteve-se vagarosamente a admirar a claridade emitida pela lâmpada. Maria, tranquila, esperava.

Segunda hora. A faxineira subiu novamente a escada e limpou caprichosamente o teto que era azul claro, e que ficou mais bonito. Maria, calmamente, esperava.

Terceira hora. A faxineira trocou o galão do bebedouro por outro cheio e pegou um regador e pôs-se a molhar as plantas do imenso jardim que ornamentava o salão da entrada. Maria, um pouco incomodada, esperava.

Quarta hora. A faxineira abriu as cortinas e limpou os vidros de uma enorme janela que ocupava quase toda uma parede do salão, através dela os raios do Sol iluminaram ainda mais o ambiente. Enquanto esperava, Maria imaginou como seria belo contemplar o brilho da Lua e das estrelas por aquela janela.

Quinta hora. Voltando-se para o grande jardim, a faxineira alimentou pequenos animais e aves que nele viviam livremente. Maria, admirada, esperava.

Sexta hora. A faxineira arrumou a grande mesa que ocupava um lugar estratégico no salão de entrada. Limpou, ajeitou jornais e revistas, deixou uma garrafa térmica de café fresquinho e cheiroso junto de deliciosas rosquinhas; certificou-se ainda de que a cadeira estivesse confortável e limpa. Encantada com tanto cuidado e amor, Maria esperava.

Terminado o seu serviço a faxineira sentou-se ao lado de Maria e puxou conversa:

- Olá, minha amiga, tudo bem? Disse sorrindo sem esconder um pouco do cansaço.

- Olha, preciso te dizer algo animada, Maria respondeu. E continuou: de faxina eu entendo, passei minha vida inteira fazendo isso, o seu trabalho é perfeito, perfeito!

- É, faço o melhor que posso, mas às vezes o dono ainda reclama lamentou a faxineira com uma pontinha de desânimo.

- Como assim? Que injustiça! esbravejou Maria mas essa não é a Casa de Deus?

- Não, minha querida explicou calmamente a faxineira essa é a Casa do Homem.

Revoltada, Maria disse:

- Tinha que ser, Homem é um bicho ingrato mesmo! Fique tranquila, minha amiga, tenho umas reclamações a fazer pra uma pessoa muito importante e vou levar seu caso ao conhecimento d’Ele. Qual o seu nome?

- Eu? Eu me chamo Deus.

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