Jogar as tranças

Por: Jane Mahalem do Amaral

212078

No conto da Rapunzel, escrito pelos Irmãos Grimm, a menina-princesa, presa numa torre muito alta, não tem como escapar da bruxa malvada. Um príncipe, ao passar por ali, ouve uma bela e melodiosa voz, cantando uma linda canção. Procura descobrir quem é. Rapunzel atende ao seu chamado e joga suas tranças para baixo, pois nunca tinha cortado o cabelo. Ele sobe e... todos nós conhecemos o final da história.

Os contos de fadas são reveladores de arquétipos, ou seja, construções elaboradas a partir de imagens primitivas, inseridas no inconsciente coletivo que vão se renovando em vivências experimentadas ao longo de várias gerações. De uma forma mais simples, o arquétipo vive em nós e se revela no nosso fazer e agir. Assim, todos nós temos, presa em uma torre muito alta, uma Rapunzel que sonha com sua liberdade.

É possível que muitos nem se deram conta ainda de que estão presos. Outros sabem da prisão , mas já a aceitaram como destino. E outros, mais atentos, vivem a procura de meios para se livrarem do confinamento.

Cada um tem sua caminhada. Interrogamos aquilo que não compreendemos, escutamos sons que não sabemos de onde surgem, contemplamos a alegria ou a tristeza envoltos num manto de penumbra e espanto. O que pensa essa Rapunzel presa na minha torre? Talvez tudo, talvez nada. Mas ela canta. O seu canto é a revelação de que ela existe, de que está viva. Rapunzel atrai o príncipe com esse canto. A bruxa malvada não pode impedir sua música. E quem é essa bruxa malvada? Penso que ela é arquitetada por mim mesma. As sombras que habitam minha alma me impedem de sair. Meus julgamentos preconceituosos, meu olhar enviesado, minhas interpretações estreitas e sufocantes. Tudo passa por um filtro viciado e, quase sempre, esse filtro só vê o meu lado e acha justo acreditar apenas naquilo que eu penso. E assim continuo presa.

É preciso sair da torre, que apesar de prisão, é também um lugar protegido. Protegido pelo mal, é verdade, mas protegido. A coragem de Rapunzel é decisiva. Ela joga suas tranças. Lança algo dela, de seu próprio ser, em busca de salvação. Arriscou-se, pois não sabia quem estava lá embaixo. Ela amou, em primeiro lugar, sua liberdade. E amar é arriscar-se, pois sempre temos nossos naufrágios. Mas é preciso nos libertar do lugar protegido e confiar no canto. O príncipe é a recompensa pela coragem. Sair da torre é sentir a brisa do vento, provar o melhor alimento e beber a água mais clara que brota da verdade da alma.

Essa Rapunzel que habita em mim precisa ser libertada. Deixar de lado meus medos, minhas excessivas preocupações, meus apegos infundados, minhas inquietações com o futuro e meus remorsos do passado. Cantar o canto da serenidade e abandonar minhas tranças, deixá-las cair até o chão e fazer bom uso da força que nelas vive. Tocar a terra, abençoar o momento presente, ser livre para aquilo que está acontecendo comigo agora.

Quem sabe, ao libertar essa Rapunzel, estarei a escrever uma outra história e os meus descendentes poderão ter um novo arquétipo, livre, para sempre, da bruxa malvada.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras