O sonho do balseiro

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Aquele rio nasceu livre, sob uma densa vegetação cujas ramagens encobriam sua nascente como um cortinado providenciado pela natureza para protegê-lo. Seguia forte e audacioso percorrendo seu caminho quando a mão do homem barrou-lhe o percurso e represou-o. Suas águas contidas inundaram margens, vales, encobriram cerrados e se aproximaram de uma pequena cidade que antes o transpunha através de uma rústica ponte de madeira e, agora, se encontrava ilhada, pois a mesma fora encoberta. Uma balsa, embarcação em forma de plataforma flutuante, bastante rudimentar, passou a fazer a travessia de veículos e pessoas. Caminhões carregados de gado, máquinas agrícolas, ônibus, motos, bicicletas, tudo era transportado pela balsa, dia e noite. O balseiro partia de uma margem, acelerando e roncando os motores e, em poucos minutos, com eles desligados, aportava, mansamente, na outra. Finda a missão, novamente carregada, a balsa voltava com outra remessa.

Gilson passou a sua existência como balseiro, num ir e vir, transportando, além de carros, pessoas dos mais diversos tipos, alguns com semblantes derrotados, infelizes, outros esperançosos, sorridentes. Ele viu a vida delas passar pelos seus olhos. Foi aí que aprendeu a conhecer melhor o ser humano e a sonhar.

Nascido e criado na pequena cidade, jovem, sem outras oportunidades, agarrou, com determinação, a que surgira. Contemplava, nas margens luminosas da represa, as remanescentes árvores folhosas com as copas refletidas na água, formando sombras inspiradoras da perfeição da natureza. Conviveu com nuvens de poeira, sol abrasador, ventos gélidos, chuvas açoitantes. Nada o impedia de sonhar, principalmente, com o futuro dos filhos. Tinha se encantado com uma mocinha de cabelo loiro que lhe sorrira durante uma travessia e com ela constituiu família, um lar harmonioso, cheio de esperança. Cuidou da educação dos meninos, pois tinha a intuição de que o conhecimento liberta. As águas do antigo rio, desde então, percorriam, suavemente, aquelas plagas. Tiraram-lhe as forças, mas elas seguiam em frente. Seu pensamento, também, corria. Embora tivesse passado a vida represado como o rio, era livre, porque sonhara. Seus filhos, bem formados, teriam outras possibilidades. Em suas profissões, poderiam contribuir, com uma atuação responsável, para uma sociedade mais justa, onde as pessoas pudessem viver livres e felizes.

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