Trégua

Por: Eny Miranda

Quando entrei na sala, a mão se ergueu: aberta, ângulo quase reto com o antebraço, palma voltada em minha direção; e logo o dedo indicador foi levado aos lábios cerrados, formando com eles uma cruz. Com esse gesto, aquela senhora me disse exatamente o que queria e o que sentia, naquele momento. Não só entendi bem o que me transmitiu mas também con/senti-o:

“Mal posso acreditar que chegam a mim os sons dos pássaros em seus louvores à luz; e são muito mais do que só maritacas e bem-te-vis: mil cantos se entrelaçam em redes de diferentes notas e timbres - consonantes laços de paz. Nesse (hoje insólito) coral de concórdia, outros sons pequenos, delicados, familiares; tilintares muito leves, crepitares suavíssimos, discretos sussurros contracantam em bocca chiusa: breve toque de talheres, na cozinha; páginas de jornal viradas por meu marido, na poltrona da sala contígua; sutil deslocar de porta, no ensaio de um movimento que não se concretiza; canto de brisa, esvoaçando através da cortina de voile (ou seria voile de cortina, regido pela brisa, esvoaçando seu canto?). Ao longe -muito longe - alguns risos de criança entrecortados pela mudança na direção do vento...

“Redescubro os sons do silêncio, e agradeço aos céus este raro momento de paz.

“Há muito não percebo a sinfonia dos alvores, nem a sonata dos ocasos, dados os ruídos provindos da Fábrica que, emitindo seus tentáculos (vociferantes e materialmente sufocantes), domina as circunvizinhanças - sons ásperos ou estridentes ou surdos ou perfurantes... Sempre agressivos e continuados. Impiedosos. Não respeitam horário. Surgem nas madrugadas, de manhãzinha, tarde da noite... e seguem durante todo o dia. Angulosos, podem algumas vezes parecer planos: retangulares, triangulares, trapezoidais... (nunca circulares). Mas são quase sempre sólidos: laminares (agudíssimos, dolorosamente penetrantes); cúbicos; piramidais... cheios de quinas vivas, contundentes, lacerantes. Nunca esféricos.

“É certo que também não vejo o céu, porque a Fábrica me barra a vista: montanha de tijolos, ferragens e cimento, erguida à frente das janelas que, antes, me levavam ao azul e às colinas - longes ainda existentes e desejáveis. ‘Nada escrito no céu, / sei. / Mas queria vê-lo’, como queria o Poeta. Não posso. Não, a vista não ‘se barra a si mesma’ (que ele me desculpe desta vez): a Fábrica barra-me a vista (além de perfurar-me os ouvidos). ‘Por ela é que [não] sei do luar’ (nem da paz).

“Assim, louvo o agora, momento raríssimo em que o Monstro Vociferante se concede breve repouso e me permite ouvir os sons do silêncio”.

Era uma rua pacata, de casas residenciais, simples e com quintais de chão batido, onde se cultivavam frutos, canteiros de flores, borboletas, horizontes e cantos de pássaros. Até que uma fábrica...

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