O clima

Por: José Borges da Silva

Há alguns dias atrás a moça do tempo do noticiário da TV avisou que choveria por todo o período no dia seguinte. Como de costume, ouvi a informação com alguma desconfiança, porque o clima anda meio rebelde a previsões nestes tempos de aquecimento global, se é que já foi dócil em algum tempo. Mas, como tem ocorrido com alguma freqüência, fui dormir com um levíssimo farfalhar de garoa caindo sobre o telhado, de modo que desta vez a previsão acertara com sobejo. O “chuáaa” quase imperceptível foi crescendo e se transformando numa sinfonia à Villa Lobos. As diminutas partículas que caíam sobre as folhas das árvores se juntavam em gotas e iam aumentando até despencarem. Um “plic” aqui, de uma gota sobre a pá de lixo atirada a um canto, um “ploc” acolá, de outra gota sobre a tampa do cesto de lixo do quintal, e um “toc-toc-toc” de pingos se acelerando, transformando em filetes as águas vindas do telhado para formar correntes nas calhas. Coincidência ou não o concerto da garoa tinha para mim um ingrediente mais agradável do que o de costume. Além de me reportar aos tempos de infância, em que eram freqüentes os vários dias de garoa fina e frio nos invernos de Franca, eu estivera lendo, pouco antes de me deitar, um capítulo de “O Cão dos Baskervilles”, obra prima de Sir Arthur Conan Doyle, que trata da investigação de um crime ocorrido nas proximidades de um pântano sombrio no Sul da Inglaterra. O ambiente úmido, com neblina em boa parte do dia, as águas purulentas e traiçoeiras, descritos com maestria pelo criador de SherlocK Holmes, transmite o “clima” das cenas de cada capítulo que sempre termina de modo surpreendente. É certo que aquelas cenas parecem ingênuas diante dos padrões atuais de violência dos filmes e da própria vida, mas a obra ainda fascina pela riqueza de detalhes da trama e ao oferecer ao leitor um leque quase infinito de possibilidades de desenlace. Fato é que para ser interessante uma história depende tanto do “clima” quanto do tema enredado. Por isso, parece não ser impróprio afirmar que o clima é também coisa do espírito, embora fenômeno natural. Ou que o clima é algo também percebido com a alma. Enfim, no mínimo os fenômenos naturais do clima interferem na vida das pessoas bem mais do que imaginamos.

Mas, no dia seguinte a chuva fina, uma bruma quase imperceptível, continuou a cair por toda a manhã. As partículas, de tão finas desciam lentamente, formando ondas, flutuando no ar. E a vida toda na cidade parecia mudada. As mulheres ficaram mais bonitas de roupas longas, por conta do frio inesperado. O café ou o chá quente ganharam requinte e motivação especial. Enfim, a mesmice do dia a dia desaparecera. O clima mudara o tom da vida.

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