Quando nem Freud explica, tente a poesia!

Por: Sônia Machiavelli

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Acho que já contei por aqui, há pouco tempo, que uma amiga perguntou aos componentes do grupo do FB “O que você está lendo?”, ao qual pertenço, que critérios orientavam as escolhas literárias de cada um. Isso me levou a pensar nas formas como os livros têm me chegado desde que fui alfabetizada. Descobri que foram muitas, e até as enumerei. Mas de uma delas só me dei conta na semana passada, quando fui atraída por um título que me gritava do alto da estante. Por meia dúzia de vezes eu olhava para ele que parecia olhar para mim. Imaginei que era porque tendo reformado a sala, havia aproveitado para rearranjar os livros e então, deslocando-os dos lugares onde tinham ficado por sete anos, seria natural que eu sentisse alguma diferença. Mas, explicações racionais à parte, ele continuou lá, me implorando para retirá-lo da ordem onde o inserira, no rol dos livros ainda por ler. Porque me acontece isso, de comprar e não conseguir sequer folhear de imediato, e me esquecer do título. Até que algo misterioso se impõe e me sinto desejosa de abrir o volume e começar a viagem. Nessas circunstâncias geralmente não paro, vou de enfiada. Foi o que ocorreu com o livro de Ulisses Tavares, cujo título tomo emprestado para estes comentários.

Quando nem Freud explica, tente a poesia “é um livro sobre o único animal que vive e sente e pensa e vive pensando sobre o que sente e vive”, diz o autor. A alusão ao criador da Psicanálise tem por fonte sua frase célebre, que abre o livro, inserida na página de rosto, e é retomada algumas vezes: “ Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” A citação é muito conhecida e motivou reflexões em vários idiomas. Em termos concisos, refere-se ao fato de que poetas de todos os tempos tratam de forma intuitiva, espontânea e absolutamente livre todas as questões pertinentes à existência humana, numa linguagem que só obedece a regras estéticas próprias, não raro também subvertidas. Shakespeare, pela fala de Teseu em Sonhos de uma noite de verão, diz que “o olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra e da terra para o céu; e no que a imaginação vai tomando corpo, sua pena capta a essência das coisas desconhecidas, moldando-lhes a forma e lhes dando um nome e um ponto de referência.” — mais ou menos isso, porque cito de memória. Pois essas “coisas desconhecidas” se transformam no rico material de reflexão para filósofos, que as ordenam construindo sistemas; com e a partir de Freud, também para os que se dedicam ao método psicanalítico, à “ciência da alma”.

Fruto de pesquisa alentada para elencar poemas e autores, o livro em questão nada tem de pretensioso, pelo contrário, é aceno a passear pelos séculos e recolher preciosidades verbais que falam de amor, beleza, inveja, solidão, fuga, justiça, tristeza, sexo, luto e outros subtemas. De Rimbaud a Patativa de Assaré; de Casimiro de Abreu a Nicholas Behr; de Florbela Espanca a Arnaldo Antunes; de Bocage a Carla Bonfim; de Gil Vicente a Martha Medeiros; de Safo a Fabrício Carpinejar; de Antero de Quental a Paulo Leminski passando por muitos outros nomes que povoam as 270 páginas, o leitor pode fazer curiosa excursão seguida de fértil inflexão. E ir parando nos verbetes, estações metafóricas que podem tocar o coração. Sejam elas Junguiana de Alice Ruiz: “Quantas coisas/ um sonho quis dizer/ e não diz”; Seguir vivendo, de Ferreira Gullar: “Amigos morrem/ as ruas morrem/ as casas morrem./ Os homens se amparam em retratos./Ou no coração de outros homens.”; Corpo, de Affonso Romano de Sant’ana: “O corpo é onde/há luta/e o sangue exulta(...)/ O corpo/ é onde/ e a vida/é quando”; Umbigo, de Arnaldo Antunes: “Só eu/ nu/ com meu/um/bigo/un /ido a/ um ún/ ico/ nun /ca”, apenas para citar contemporâneos.

Os poemas estão agrupados por temas nas oito partes que compõem o livro: O eu; O outro; O corpo; A alma; A vida; A morte; O sonho; A realidade. Cada uma destas é antecedida por uma frase de Freud sobre o tema em questão e outra de um poeta que faz parte da coletânea. Assim, no capítulo O eu, à frase destacada de Freud — “Não se deve tentar erradicar os complexos da pessoa, mas sim entrar em acordo com eles”- justapõe-se o verso do poeta Mário Quintana: “Eu moro dentro de mim mesmo”.

Um livro bom para se ter à mão. Abrir ao acaso. Ler, sentir e pensar questões essenciais à nossa existência. Às vezes dói um pouquinho e pode desencadear palpitações. Nada demais: são os tais efeitos colaterais...


UMA VIDA MOVIMENTADA

Ulisses Tavares

Nascido em 1950, Ulisses Tavares escreveu o primeiro poema aos seis anos. De lá para cá, publicou em diversos gêneros. Nos anos 60, seus textos saíram em edições mimeografadas. Nos 70, transformou alguns deles em performances poético-corporais, inspirado pelas ideias do psicanalista Wilhem Reich, e editou o jornal Poesias Populares, de combate ao regime militar no Brasil. Em 1977 publicou Pega Gente, poesia, e criou o Núcleo Pindaíba Edições e Debates, lançando escritores como Leila Miccolis e Maria Rita Khel, esta última, conhecida psicanalista. Também atuou na área de literatura infantil com Sete Casos do Detetive Xulé ; Viva a poesia viva!; A maravilhosa sabedoria das coisas, e SUBS, quadrinhos, em parceria com o desenhista Julio Shimamoto. Contam-se entre seus títulos, Hic!stórias- os maiores porres da história da humanidade (Editora Panda Books), Diário de uma paixão (Geração Editorial), O negro em versos ( premiado com o selo Altamente Recomendável da fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Recentemente lançou a antologia Poemas que latem ao coração (Editora Nova Alexandria), com poemas de 50 poetas.

Dramaturgo, roteirista de cinema e televisão, professor de pós-grduação em web, publicitário e jornalista,”se orgulha mesmo é de nunca ter traído sua missão de poeta peregrino, percorrendo o país com seus recitais, oficinas de poesia e palestras.”

Sobre a obra comentada ao lado, diz que “não é um livro sobre os pensamentos de Freud, mas também é. Freud pagou o preço do pioneirismo, sendo um homem de sua época. O conteúdo do livro ilumina temas que, partindo do saber freudiano, vão além dele, ampliam, contextualizam.”

Serviço
Título: Quando nem Freud explica, tente a poesia!
Autores: diversos
Organização: Ulisses Tavares
Editora: Francis

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