Adeus, meninas!

Por: Everton de Paula

A infância é um momento mágico, o mais breve de todos.

Para um adulto, uma nuvem que passa sobre a lua é apenas uma nuvem como as que já passaram antes. Mas com a criança não é assim. Para ela, as coisas acontecem pela primeira vez. O mundo nasce-lhe cheio de frescor a cada farfalhante latejar de tempo.

Lembro-me de um dia de fevereiro. Quaresma, lua cheia. A última lua cheia antes da Semana Santa. Saí com as minhas filhas Thaís e Lígia pelas ruas dos quarteirões vizinhos. Elas, pequeninas, seguravam com força minhas mãos, olhando-me com aqueles olhinhos amados, curiosos, prevendo que alguma surpresa o pai lhes reservava. Meu Deus, de onde tirei tantas surpresas, tantas brincadeiras, tantas histórias, tantas invencionices que as encantaram pela vida a fora?

Num dado momento, estávamos frente a uma casa que ostentava a chaminé, de uma lareira, possivelmente. Na calçada, uma árvore frondosa. E no céu, a lua cheia plena de luz e magia. Sim, era um momento mágico. Então, lhes disse: Vamos nos sentar aqui, na sarjeta, e apreciar a beleza da noite. Ventava um vento manso e fresco de quaresma. O ar era tão puro e o amor tão recíproco. Completei: Minhas filhas, vamos fazer um trato todas as vezes que vocês virem, ao mesmo tempo, uma chaminé, uma árvore e lua cheia, estes serão os sinais do amor que eu tenho por vocês. Nunca se esqueçam disso!

Elas levaram as mãozinhas à boca. E disseram que sim com a cabeça. Disse-lhes ainda: Olhem bem o que estão vendo agora. Depois, fechem os olhos e tirem uma fotografia mental disso tudo. Nunca mais vocês esquecerão este momento e este trato!

E assim foi feito.

Lembro-me de um dia de julho, quando a terceira filha, Cíntia, que tinha quatro anos, aninhara-se em meu colo. Acabáramos de jantar. Ainda havia uns rasgões vermelhos de raios de sol no céu. Prenúncio de noite gelada. Levei Cíntia para a praça. Como de costume, ela estava de mãos dadas comigo, mas de repente se soltou. A minha pequenina Cíntia ficou um instante parada, examinando a extensão da praça, dos gramados e flores, dos calçadões pavimentados. Não havia quase ninguém na praça àquela hora. O carrilhão da catedral chorou notas tristes. Cíntia estava naquele momento, possivelmente, examinando a maior extensão que já vira inteiramente em toda sua vida de quatro anos. Depois, saiu correndo com vontade, soltando gritinhos de descoberta e satisfação.

Ainda posso vê-la quando fecho os olhos, aquela criança loira que nunca mais verei, embora ainda viva, escondida numa moça vivaz, ativa, que tem o seu nome.

Júlia, a última delas a nascer. Teria, talvez, cinco anos quando se viu, pela primeira vez, diante do mar. Ela corria até a imensidão da água. Quando a onda lhe chegava aos pés, dava uma volta e se arremetia a em direção a nós, cabeça voltada para cima, olhos semicerrados, braços abertos, rindo risinhos de prata... E se jogava com vontade em meu colo. Em espírito, eu corria com ela, sentindo as coisas que ela sentia, e percebi que a criança, que soltara a minha mão no areal e me deixara, nunca mais voltaria, que num breve fragmento de tempo a criancinha se fora e surgira a menina-moça. Eu podia sentir o tempo pulsando e passando. E creio que minha mulher sentia isso também: O mar é tão grande, o mundo é tão grande, e ela é tão pequenina murmurou a mãe.

E assim dissemos adeus a quatro crianças, nossos tesouros e demos boas-vindas às adolescentes em que se transformariam, às moças de olhos sonhadores e, hoje, as mulheres batalhadoras pela vida. Com exceção da Júlia, 21 anos, com quem insistimos ainda conversar levando as palavras ao diminutivo: Filhinha, já tomou seu banho? Talvez ela se mantenha calada por respeito ao amor dos pais, mas também talvez goste do tratamento. Afinal, domina o computador, tablets e celulares muito melhor que o pai e descreve a fisiologia humana com uma precisão e propriedade de dar arrepios. Já se encontra cursando o último ano de Farmácia a minha caçula.

Dissemos adeus às nossas quatro flores, quatro botões que, por mais que tentássemos reter as pétalas em nossas mãos, a providência divina delicadamente, sutilmente as fez desabrocharem.

Com o correr dos anos de relação entre pais e filhos a experiência de ver chegar e partir tornou-se algo comum. Compreendo cada vez melhor o que minha mãe queria dizer quando observava que os pais têm muito pouco tempo.

As crianças são pequenas durante poucos anos, dizia ela, e olhava para mim, mas via o menino que eu fora um menino que desaparecera como fumaça, deixando apenas recordações na sua memória e na minha. Minha mãe já deve ter esquecido de tantas coisas que lhe aconteceram ao longo de mais de noventa anos, mas que nunca pôde esquecer de eu menino, chegando da escola, calças de brim cáqui curtas, suspensórios, cabelos despenteados, jogando os materiais escolares para um lado, tirando os sapatos e meia, correndo para o quintal, subindo na goiabeira, no mais alto galho seguro e firme para apreciar nuvens brancas e urubus negros que povoaram e fantasiaram as minhas paisagens de infância.

Toda criança é como um fogo-fátuo que nós, desajeitados pais, tentamos em vão agarrar e apertar nos braços. A meninazinha que, na hora de dormir, ia para o quarto nos meus ombros, já se foi, e em seu lugar há uma moça bonita. As filhas que, outrora confiantes, seguravam a minha mão, andam agora por lugares onde eu não posso segui-las.

Praças, praias, flores, luares, chaminés, árvores, a imensidão do mar. Por quantos lugares passeamos. Os pezinhos de meus tesouros pequeninos já não pisam folhas secas e soltam risadinhas de prata. Mas ainda assim, enquanto perdurarem minhas recordações, praças, praias, flores, luares, chaminés, árvores e a imensidão do mar viverão em nós como eram no dia em que aí paramos e ouvimos o latejar do tempo em sua esmagadora marcha.

Era nisto que eu estava pensando quando a campainha de casa tocou. Logo, a sala encheu-se de alegria. Meus dois netinhos Vítor e Ana Alice caíram em meu colo. Pronto; como magia abençoada, a vida iria me presentear a história recomeçava!

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