A última janela

Por: Hélio França

Nos momentos cruciais da vida é necessário que nos reste um mínimo de sonho, para que possamos abrir aquela última janela da alma que restou fechada. É por ela que há de fluir um novo sopro de esperança, uma brisa, um alento mais, quem sabe um hálito de Deus, se a fé for suficiente para senti-lo.

Acostumamo-nos às vezes a ver a vida somente por frestas que sempre estiveram abertas, então todas as paisagens vislumbradas através destes espaços tendem a tornar-se menos atraentes, repetitivas, quando não enfadonhas. Talvez a mesmice onde os sonhos adormeceram seja mais conveniente do que uma nova visão, daí a reticência em abrir uma janela fechada, mesmo sabendo de sua existência.

Depois do horizonte há outro horizonte, e outro, e mais outro, milhões deles a esperar o repouso, não só do sol, mas dos nossos olhos que podem ficar embevecidos com o vinho do poente. Que venha a noite, com a lua imperatriz e seu séquito de estrelas. Deixemos nossos desejos entrarem neste palácio noturno adornado de ouro e prata. Não há o que temer da escuridão, ela nada mais é que um dia adormecido. Portanto, assim como nascem os dias, também devemos deixar nascer nossos sonhos, vindos à luz pelas mãos de um novo sol e acalentados pelos braços do alvorecer.

Regozijemo-nos com o voo dos pássaros enaltecendo a manhã cheirosa e deliciosamente audível, face à alegria dos gorjeios e trinados das aves em revoada. Que nossa alma seja uma alvorada constante, iluminada pelas luzes da esperança, risonha pela alegria de abrigar a fé, este instrumento sagrado capaz de implodir montanhas ou arrebentar pedras, qual um rio caudaloso, destemido, determinado a remover obstáculos, porém humilde o suficiente para saber que o oceano é o pai de todas as águas e o senhor de todos os segredos.

Atrás de uma janela fechada existem milhões de segredos e não existe segredo algum. A dúvida está na nossa cabeça. O medo não faz parte do ser humano, ele é parte da falta de aspiração de cada pessoa. É preciso saber o que há além do horizonte, coragem para abrir uma janela fechada e, principalmente, desejar uma nova paisagem exposta. Sempre haverá uma janela a ser aberta. Depois, outras se mostrarão fechadas. Abra todas, cada uma, como se fosse a última janela, a última... Abra vagarosamente, sem medo, veja o que existe lá fora, deixe as pernas caminharem pelo chão da vida, e observe o que se descortina, com os olhos da alma!

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