No salão do barbeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Uma chusma de desocupadostransita diariamente pelo salão do cabeleireiro Valtinho. Hoje, porém, parece que a coisa piorou. Deve ser a garoa e o frio que estão empurrando mais gente aqui para dentro, nesta segunda-feira.

Dos quatro times grandes de São Paulo, o Palmeiras...

Pera lá... Você está errado. Só tem três times grandes em São Paulo. Faz vinte anos que a Portuguesinha já virou time pequeno.

Deixa de ser ignorante... Eu tô falando é do Santos.

Pera lá... Pra começo de conversa, o Santos não é da capital. Pode até ser grande, mas é no interior...

É grande perto do Guarani e da Ponte Preta...

Ah, deixa pra lá... Você é uma besta.

Deixa de ser burro, Tonho. Tá chamando seu irmão de besta? Então, o que que você é?

Enquanto Tonho, Ronan, Valtinho Chulé, Zecão, Paulinho e Edu discutem em voz alta e quase se engalfinham, o dono do salão liga o secador aspirador ao contrário e vai empurrando tufos de cabelos, caídos e espalhados pelo ambiente desde o sábado. Caprichosamente, leva os montinhos e os deixa no monte que se forma debaixo do aparador que vai de parede a parede. Ele está repleto de frascos (uns vazios, outros pela metade), de aparelho de barbear, de tesouras, de escovas e de toalhas amarrotadas, tudo numa desordem dos diabos.

O barulho do secador faz elevar-se o tom de voz dos presentes. Então o cabeleireiro eleva mais o som do televisor, e o ambiente fica quase insuportável, dominado por decibéis que atingem número máximo em todas as escalas e medidas.

Neste momento, entram no salão dois clientes tradicionais do cabeleireiro: Hélio Rubens e Cupim. Ambos cumprimentam educadamente os presentes, mas a fineza para por aí, substituída por dura repreensão do francano famoso:

Cria vergonha, Valtinho. Esse salão está parecendo chiqueiro.

Sabe, Hélio... é que a faxineira não vem hoje.

Vem que dia?

Só vem na próxima reencarnação do Valtinho.

Risos de aprovação passeiam por todas as faces, e todos voltam a falar ao mesmo tempo.

Basta-me. Levanto-me e saio.

Sob a garoa fria e empurrado pelo vento da praça, caminho e medito.

Perdi a manhã. Fui ao salão pra ver se colhia algum assunto para uma crônica e só ouvi besteira. Nada escutei que servisse de inspiração. A menos que eu queira escrever sobre o inferno...

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