Um endereço londrino

Por: Maria Luiza Salomão

Eu tinha um endereço para visitar em Londres, e solicitei ao concierge do hotel, que me atendeu prontamente: 20, Maresfield, Hampstead. A última morada de Freud, obrigado a deixar sua casa, em Viena, que morou por cinquenta anos. Há dois anos estive nessa sua casa, em Viena, hoje museu, vazia, retratando a pressa em que saíram os moradores, a fugir do cerco dos nazistas aos judeus, na Áustria por eles ocupada. Seus livros foram queimados em praça pública. Sua filha, Anna Freud, também psicanalista, estava sendo ameaçada pela aterrorizante polícia alemã, a Gestapo. Freud relutou quanto pôde, mas não suportou ver Anna correr risco de vida. Foi muitíssimo bem recebido pelos londrinos.

Freud não presenciou o eclodir da guerra, morreu em 1939, na casa londrina, de um câncer que o acompanhou por quase 20 anos, desde a morte da filha Sofia. Os amigos, entre eles, principalmente, Marie Bonaparte, conseguiram comboiar os pertences mais queridos e valorizados pela família de Freud (os nazistas cobravam extorsivas taxas aos judeus que saíssem do país). Viveu pouco mais de um ano na casa que achou muito linda, tão diferente do espartano apartamento vienense, pequeno, e que abrigou Freud e Martha, os filhos, a cunhada Mirna e outra família, nos tempos difíceis da Primeira Guerra. Ali criou os filhos, viu nascer os netos, sofreu os embates naturais de quem tem coragem e determinação para levar adiante ideias novas e revolucionárias.

Manteve-se prolífico escritor até a sua morte, aos 83 anos. Sua filha Anna permaneceu na 20, Maresfield, e a doou, em 1982, ano de sua morte, para que se tornasse a Fundação Freud. Apesar de ter ficado ali apenas um ano, o museu está vivo na comunidade londrina, enquanto, em Viena, são poucos os que sabem da história e que reconhecem a importância de Freud para a história do século XX.

O que mais me impressionou nessa casa foi ver, de perto, a quantidade enorme de estatuetas antigas, colecionadas por Freud, presentes em seu consultório, e espalhadas pela casa: ele era um arqueólogo autodidata. Por que me assombrou ver o que já sabia? Tenho livros com fotos, cartas dele referindo-se à coleção...o que, de fato, me causou tamanha impressão? É que Freud, também, era um senhor muito discreto. Essa grande paixão permaneceu em seu universo íntimo, e quem privou de sua intimidade, quando vivo, não fez alarde algum.

Não deveria, no entanto, me surpreender, já que em seus escritos essa paixão pela História, Antropologia, está registrada: materializada em uma obra de 24 volumes, e em mais uma enormidade de volumes de cartas publicadas. Freud exibe, ali, o cerne da sua obsessão, da sua vida escrita: seu desejo de conhecer a alma do ser humano. Sua investigação rigorosa e persistente, por mais de 60 anos, o levou a considerar que a alma humana, em sua história individual, caminha paralelamente à história coletiva da espécie humana. Em ciclos, agrupamentos, a viver guerras e destruições de povos, a arrebanhar alguma sabedoria. Nas estatuetas, vejo o Herr Professor mirar a força da espécie humana e a esperança de que o humano que existe em cada um de nós, “nosotros”, pode sobreviver, e sobrevive, em imortalidade coletiva. Apesar.

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