Olhares

Por: Eny Miranda

Abre os olhos, vê o céu: interminável, diáfano, silente... Azul!

Flutua, ele mesmo, num outro céu - líquido - que em algum ponto longínquo encontra o etéreo e com ele se confunde. Na harmonia dos azuis, vive esse coração sépia, a balouçar, a ouvir marulhos que se diluem e se refazem, continuamente, em movimentos subintrantes.

Imerso no azul água, do azul gás se enamora, e a ele dirige olhares e anseios; de seu translúcido ventre espera germinares - algo além daquela muita luz, difusa ou distribuída em miríades de pontos que surgem logo depois de o azul arder e se dissolver em denso negrume.

Assim permanece, até que um dia volve o olhar para o adiante, e descobre um elemento novo - denso e seco. Deseja conhecê-lo de perto; empenha-se, alcança-o, mas se entristece: nele, apenas, monótonos beges e marrons e cinzas... De quando em quando, uma explosão vermelho-alaranjada, em lampejos amorfos, se faz, à custa de calor intenso, no cimo de um monte a cuspir rubras e diluentes farpas.

Mas, se do azul diáfano nada nunca brotou além da luz (e das lágrimas que, algumas vezes, chora), dali, daquela aridez monocórdia, brotam agora duas tenras gotinhas verdes, ladeando pequenina haste. Olha, admirado, a nova cor, as definidas formas. Sente delas o aroma, o frescor, a maciez. Invade-o, então, um sentimento desconhecido, uma sensação otimista de promessa.

Acompanha, dia após dia, aquele minúsculo prenúncio, e, extasiado, descobre outros, e mais outros; incontáveis apêndices medram daquela haste - cada vez mais ereta e mais alta - e de inúmeras outras, em inacreditável multiplicação de vida. Sente uma carícia fresca tocá-lo levemente, enquanto observa o balançar suave das muitas e variadas bagas, cada dia mais verdes. E experimenta uma sensação de profunda paz.

E, dos verdes (já em diferentes tons), irrompem amarelos, ciclamens, carmesins, lilases... de diversos tamanhos e formas, odores e paladares (decide prová-los): úmidos, fortes, suaves... E se pergunta como podem secos marrons e beges produzir tanta cor, e frescor, e seiva, e sabores. Numerosos outros seres, vestidos das mesmas e de outras cores, acorrem a esse jardim, em alegre algaravia, a usufruírem e a doarem: vida à Vida!

Até que um desconhecido - belo, inteligente, elegante e perspicaz -também descobre esse colorido espaço e nele vê novas possibilidades. Inventa formas muito mais interessantes de usá-lo, e de modificá-lo, explorá-lo, recriá-lo... Múltiplas hastes cinzentas eclodem por todo lado; longos dedos fluidos de substâncias estranhas ascendem ao azul, e o envolvem lentamente, asfixiando-o, estrangulando-o...

Verdes, amarelos, ciclamens, carmesins, lilases... vão-se alterando, escasseando, substituídos por estéreis marrons e cinzas, e brilhos e luzes e sons... E a algaravia dos seres coloridos vai-se diluindo... Silenciando...

Agora, os seres inteligentes e perspicazes estão a olhar outros azuis, enamorados do ouro que deles, quem sabe, poderá brotar.

Ah, eternos, inflacionáveis, incontroláveis humanos olhares.

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