Aconteceu em Cabuaçu

Por: Everton de Paula

Teobaldo era prefeito de Cabuaçu-Mirim. Gestão polêmica pois que o moço queria ficar conhecido na história dos cabuaçuenses como o pai de grandes obras. Tarefa hercúlea, quase impossível, já que o orçamento da cidadezinha mal dava para cobrir os gastos com a edilidade e os funcionários, quanto mais aventurar-se a obras que enchessem os olhos e a alma. Para piorar a situação, a esposinha do prefeito danadinha ela! botara apelido no marido de Teté! Certo é que não há homem público que vá adiante com um apelido deste; ninguém o leva a sério: “Teté diz que faz, mas nada acontece”, “Teté não usa chapéu; será por quê?”, “Teté, Tézinho, isso lá é nome de home, eita!” eram os comentários que se ouviam à sombra do tamarindeiro, na pracinha da igreja, no diz-que-diz-que da tarde, ao doce refrescar-se com chibé e jinjibirra, enquanto das janelas do casarão assobradado de dona Cotinha vinham as doces melodias dos chorinhos de Nazareth, tocados no velho piano Pleyel pela viúva octagenária mais respeitada daquelas paragens.

Teté, ou melhor, o senhor prefeito de Cabuaçu-Mirim, apesar do calor e da ociosidade coletiva consciente e proposital dos funcionários, apesar da descrença do seu povo, metia-se em seu gabinetezinho a meditar sobre algo que revirasse a cidade de pernas pro ar! Asfalto? Num carece! Fonte luminosa? Desperdício! Campo de futebol? Não havia pernas para tanto! Posto de saúde? Cadê recurso? Ô coisa mais sem-graça!

E isso era quase todos os dias. Um despachozinho aqui, uma rubrica ali, e a vida seguia mansa, sem sustos.

Pureza, mulher do prefeito, fazia rosquinhas pra fora. De coco! Delícia saborear as rosquinhas de Pureza. E ela os fazia não por precisão, mais para deixar o tempo passar e fazer-se impor na cidadezinha como primeira-dama, primorosa na culinária. Teobaldo incomodava-se quando Pureza saía com o tabuleiro farto de rosquinhas e passava a tarde visitando as freguesas. Incomodava mais quando voltava, feliz da vida, tabuleiro vazio mas os olhos ardendo de felicidade.

Um dia, Teobaldo inventou de visitar o cemitério. Cabuaçu era cidade antiga, perdida nesses sertões longínquos da Bahia, bem pra lá do raso da Catarina, longe do Vaza-Barris, distante léguas e léguas de Cocorobó. Pois quem havia, então, de se incomodar com o lugar?

Cidade antiga, cemitério cheio, é claro. E se havia coisa que chamasse a atenção dos moradores do lugar era a graciosidade das sepulturas. Isto porque, por um bom tempo, morou em Cabuaçu um jovem artesão, o Capistrano. Como não tivesse ninguém pra embelezar a última morada dos habitantes, o rapaz propôs cuidar da feitura das sepulturas com dinheiro da municipalidade. E mandava vir de outras cidades anjos de mármore, cruzes de pedra-sabão, altares de granito, retratinhos dos mortos preparados em louça de eterna duração, plaquetinhas azuis com a inscrição “sepultura perpétua”, coisas assim. Aos poucos foi cuidando do campo santo e enchendo as burras de cobre e, quando morreu com quase noventa anos, o cemitério da cidadezinha era, com certeza, o cartão de visita daquele fim de mundo.

A idéia insólita estalou na cabeça de Teobaldo: faria do cemitério um ponto de encontro dos cidadãos de Cabuaçu. Da intenção ao gesto durou nadinha de tempo: mandou caiar as sepulturas, os muros, a capelinha, podou as flores sepulcrais, poliu os vasos e argolas das carneiras... Mas não ficou apenas no trivial: construiu uma pequena fonte luminosa no centro do cemitério, iluminou as alamedas e projetou a noite de inauguração.

Foi uma festa inesquecível: fogos de artifício brilharam nos olhos dos visitantes meio que embevecidos e espantados com o inusitado de uma festa noturna no cemitério. Coisa de pagãos romanos!

Súbito, a banda irrompe portão adentro lascando dobradas e marchinhas, sob a imponente e fantasmagórica marcação da tuba do Horácio. Havia de tudo no campo santo de Cabuaçu: algodão doce, pipoca, pirotecnia, acrobacias de dois anões, a fonte suspirando jatos de água iluminada, malabaristas equilibrando-se entre o espaço exíguo dos túmulos...

A partir dessa festa, todos os finais de semana o cemitério iluminado e festivo abria suas portas, à noitezinha, para o deleite dos cabuaçuenses. Mas a coisa não parou por aí: Teobaldo contratou um caseiro para morar no campo santo e tomar conta das pequenas e fugazes preciosidades. No fundo da necrópole, havia ainda muito chão para se abrirem covas. O coveiro, entusiasmado com a idéia do prefeito em humanizar aquele local, cercou um pedaço de terra e implantou uma horta comunitária: beleza vê-lo colhendo, após algumas semanas, espécimes carnudos de cenouras, mandiocas, batatões... Adubo não faltava! Daí para um campinho de futebol foi um pulo!

É claro, o leitor tem toda razão. Houve quem não gostasse da idéia. Os parentes dos mortos, por exemplo, a ala conservadora das filhas de Maria e os vicentinos, por outro exemplo. Era a velha igreja metendo outra vez seu dedo secular na obra humana. Heresia! Desrespeito! Escreveu-se uma carta ao governador da Bahia e, pouco depois, a autoridade despachou ordem de acabar com aquela miscelânea. Teobaldo, a princípio, julgou a sentença um tanto misantrópica, mas a contragosto acatou a ordem com foro judicial. E o campo santo voltou a ser o que sempre fora: um simples cemitério, pálido, silencioso, apagado à noite, duas ou três pessoas durante a tarde vagando por entre jazigos, terço nas mãos, orando pelas almas.

Cabuaçu-Mirim retomou a sua sina de cidade perdida nos sertões da Bahia, sem atrativos que não fosse o gado magro, pastagem pouca, roçada para o gasto, dias longos, noites frias...

Passados alguns meses, Teobaldo sofre uma parada cardíaca. Sem recursos de pronto atendimento médico, a cidade apelou ao farmacêutico que apenas pôde acompanhar os últimos momentos do prefeito, tendo em mãos inúteis folhas de alfavaca e um vidrinho de cânfora.

Velório, com a presença obrigatória das carpideiras.

Os boateiros do tamarindeiro formaram num zás-trás pequena comitiva para cuidar do sepultamento. Afinal, o morto merecia. Repetiriam aquela noite festiva de reinauguração do cemitério.

O governador ficou sabendo da notícia no mesmo dia do falecimento de Teobaldo, sabe-se lá como, e mandou, por trem, uma reduzida tropa de soldados para impedir o que fosse proibido. Não chegaram a tempo. Teté foi sepultado logo à noitezinha, ao som da banda local, fogos pirotécnicos, algodão doce, com direito a cantorias e estandartes. O povinho aplaudiu o último ato do prefeito: ser enterrado sob homenagem que, um dia, ele imaginara para os moradores de Cabuaçu.

Quando os soldados chegaram, de manhã, o prefeito jazia debaixo de sete palmos. O sargento exigiu explicação e Pureza logo se adiantou:

- Ora, seu moço, teve banda sim, mas só pra tocar a marcha fúnebre para a maior autoridade da cidade, o meu Teté, o meu doce e inesquecível Tetezinho. Por falar em doce, o senhor e os soldados aí apreciam rosquinhas de coco?

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