Um livro com mais de 150 edições

Por: Sônia Machiavelli

212840

É auspicioso constatar que num país onde o índice de leitura se mantém baixo em relação a nações europeias e a duas da América Latina, como Argentina e Chile, destacam-se livros com tiragens de milhões de exemplares, e títulos que já passam da 150ª edição. É sobre um deles, A marca de uma lágrima, que gostaria de fazer algumas considerações. A respeito de seu autor, Pedro Bandeira, há dados na coluna ao lado.

Dedicado ao público adolescente, o romance se ergue sobre duas histórias que em determinado ponto se imbricam. A principal descreve a paixão não correspondida de Isabel pelo primo Cristiano, por sua vez atraído pela melhor amiga dela, Rosana. A outra narra um crime, no qual tomou parte como testemunha a protagonista.

Na linha do discurso investigativo, lançam-se dúvidas sobre os fatos apreendidos pelo olhar do narrador que não se mostra onisciente. É aos poucos, à medida que o ponto de vista se desloca, num engenhoso artifício de construção do enredo, que são introduzidas pistas. Mas é na linha do discurso amoroso que o romance ganha complexidade, pois para ajudar a primeira-amiga a conquistar definitivamente o primo amado, Isabel escreve poemas que a primeira assume como seus. Um deles abre o livro: “No meu seio será meu/ para o uso que eu quiser/ Nos teus braços me abandono/ ao teu lado sou mulher”.

Se nos reportarmos aos nomes Cristiano e Rosana, às cartas que escondem sua verdadeira autoria, e ao fato de Isabel sentir-se feia, abrimos a fresta para identificar de onde vem a inspiração do autor. Adivinhou quem citou Cyrano de Bergerac, do escritor francês Edmond Rostand. Pedro Bandeira confirma, assim como o faz em relação a O medo e a ternura, baseado em O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo; Agora estou sozinha, que tem reminiscências de Shakespeare em Hamlet; O fantástico mistério de Feiurinha, revisitação de contos de fadas.

No caso do romance em questão, trazendo para a cena contemporânea história secular marcada por emoções perenes, Pedro Bandeira consegue transfigurá-la com sua imaginação fértil. E com seu estilo peculiar, onde a linguagem, obedecendo à norma culta, ganha vitalidade nos diálogos plenos de espontaneidade e nas metáforas onde a emergente sexualidade se exibe na dimensão perturbadora como é percebida pelo adolescente. Destaque-se trecho onde Isabel se lembra de uma experiência no laboratório da escola e a associa aos seus sentimentos por Cristiano. As imagens recortam o tema com delicadeza, fazendo jogo de palavras de alta conotação erótica: “Ai, cobra e aranha, aranha e cobra, a aranha quer a cobra, a cobra busca a aranha, a aranha se debate na gaiola de vidro, vai quebrar-se o vidro, já vem vindo a cobra, vem, Cristiano, me abraça (...)”

Narrativa equilibrada, as duas linhas do enredo de A marca de uma lágrima chegam juntas ao desfecho, que nos apresenta uma protagonista transfigurada pelas experiências, inclusive pelo descortino final que a conduz a uma reavaliação de si mesma. Corajosa, de sentimentos nobres, muito sensível, compassiva e capaz de se sacrificar pela felicidade alheia, como o herói no qual foi inspirada, num ponto ela o contradita. Sai da história muito viva, consciente de que as ilusões, que fazem parte da vida, podem induzir a erros de avaliação. Com firmeza e coragem, na sua solidão de ser pensante é capaz de desfazer equívocos e caminhar mais próxima da realidade, ganhando em autonomia. O autor elege Isabel como uma das suas personagens femininas favoritas. Milhares de leitores dizem o mesmo, inclusive nos sites de discussão literária. Isso é esperançoso, pois os jovens precisam mirar-se em modelos éticos, numa sociedade onde a ética sofre atentados diários em todas as instâncias de atuação humana.


22 MILHÕES DE LIVROS VENDIDOS

Pedro Bandeira

De O dinossauro que fazia au au publicado em 1983, a Garrote, menino coragem, de 2009, somam oitenta os títulos assinados por Pedro Bandeira, que só lançou o primeiro deles aos 40 anos.

Nascido em Santos em 1942, aos 18 foi para São Paulo cursar Ciências Sociais na USP. Ao mesmo tempo fazia teatro e lecionava literatura. Depois vieram os anos de trabalho como publicitário e jornalista. Apresentou programas na TV dirigidos ao público jovem. Recebeu vários prêmios pela produção de peças publicitárias.

Em 1972 começou a escrever histórias para crianças, publicadas em revistas e vendidas em bancas de jornal pelas editoras Abril, Saraiva e Rio Gráfica. Em 1983, o primeiro livro lançado pela editora Moderna tornou-se um clássico e foi catalisador da decisão do autor de se dedicar integralmente à literatura. Tornou-se o escritor de obra infanto-juvenil que mais vende no Brasil. Foram 11 milhões de exemplares até 2009; além de 11,2 milhões adquiridos pelo governo federal para distribuição às bibliotecas escolares.

Suas histórias seduzem pela agilidade do enredo. O estilo se caracteriza pela espontaneidade nos diálogos, descrições plásticas, metáforas frescas.

Entre os prêmios recebidos incluem-se o Jabuti, o APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte); e o Adolfo Aizen.

Homenageado pela Feira Nacio-nal do Livro de Ribeirão Preto, ele se encontra hoje, a partir das 11 horas, com seus leitores no Teatro Pedro II. Convidada a mediar o encontro, estarei lá. (SM)

Serviço
Título: A marca de uma lágrima
Autor: Pedro Bandeira
Editora: Moderna
Ano: 2001
Número de páginas: 127
Prêmio: Melhor Livro Juvenil/ APCA

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras