Cão de mel

Por: Cléria Bittar

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Parece que foi ontem que eu o trouxe para casa. Uma pequena bolinha de pelo que cabia literalmente em uma mão, tão pequeno que era. Sua chegada foi marcada por uma árdua negociação entre meus filhos e o pai, que inicialmente não o queria em casa. Lembro que fui buscá-lo num domingo de manhã, e aquela coisinha minúscula não parava de andar no assento do carro, e de me olhar como que se a perscrutar minhas reais intenções. Ao chegar à casa, meu filho veio correndo me perguntar se eu o trouxera, e eu fazendo ar dramático neguei, dizendo que ele fora morar em outro lar. Seus olhinhos de criança emudeceram de tristeza e desapontamento, e eu, prontamente arrependida e até envergonhada pela brincadeira de mau gosto, logo me retratei espalmando minha mão direita, que até o momento estava escondida atrás de minhas costas, e o apresentei embrulhado num pedaço de pano.

- “Oh, meu amiguinho!” foi com essa interjeição de espanto e alegria que Galileu passou para suas mãos entrando assim para a família. Três anos após sua chegada, juntou-se a ele Bartolomeu, seu filho, e ambos passaram a ser parte do cenário da infância dos meus filhos e de minhas mais ternas lembranças.

Durante todos esses anos eram duas crianças e dois cachorros que se embolavam em brincadeiras e ‘perseguições’ em momentos inesquecíveis, mas o tempo, esse senhor inexorável, tratou de fazer com que os primeiros deixassem de serem crianças para se tornarem pássaros, ganharam asas, deixando uma casa vazia e muda, só não mais silenciosa devido a algum latido ainda resistente à velhice que os modificou em uma velocidade espantosamente maior que a dos humanos. Permaneceram assim, os dois, fiéis ao seu destino de serem fiéis, e de sempre estarem à espera de quem partiu -uma espécie de ‘sina canina’.

Galileu sempre foi o mais manso dos dois, e seu olhar dócil contrastava com uma agilidade que foi com o tempo se perdendo. Embora frágil e já com a saúde comprometida nunca perdeu a mansuetude de seu olhar. Recentemente seu coração começou a dar sinais de que já estava cansado de bater, e os desmaios passaram a ser frequentes, o andar claudicante e a expressão meiga do olhar parecia me dizer que já estava se preparando para sua grande viagem.

A chama da velinha foi lentamente se apagando ante meus olhos, que embora cientes dessa realidade, hoje choram na despedida. Vê-lo inerte, jazido ali, na minha varanda, sem o sopro da vida que o animou durante quatorze anos, me trouxe de volta todos os momentos de minha vida em que ele foi o companheiro coadjuvante das peripécias de meus filhos. Sempre por perto, disposto a partilhar de sua existência apenas pelo gozo de estar presente, sem a necessidade de reivindicar o protagonismo da história. Sua existência estava condicionada à pura expressão e à alegria em servir.

Hoje choro por ele e por mim, e ao me despedir só pude lhe agradecer por tornar minhas memórias mais doces, por sua presença de ‘cão de mel’, e pedir-lhe perdão por minha animalidade ainda incapaz de entender como pode nos amar incondicionalmente.

Galileu, meu cão, obrigada por tudo e por ter tornado nossas vidas melhores e nosso fardo mais leve. Que sua alma hoje seja recebida no seio de Deus, e eu, aqui embaixo, possa imaginá-lo correndo e latindo feliz em um céu de cachorros. Até um dia, amigo.

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