Ponte

Por: Ronaldo Silva

Menino desassossegado crescido na roça,
cujo universo era a velha casa
com seu quintal imenso, de jabuticabeiras gigantes.
Infância besta (e boa!).

A bica d’água em frente a porta da cozinha.
As imponentes moitas de bambu gigante.
Tropel de cavalos ao redor do quintal.
Ruídos que jamais desapareceram da memória.
E, como outrora, inda me impedem de dormir.

Os fantasmas que eu via de noite,
ainda hoje não sei bem se eram reais
ou apenas sombras da velha tapera.
Sei apenas que me petrificavam de pavor.

O corpo de menino cresceu rápido,
obrigando um espírito desconfortável
a se ajustar à sua estatura.
Ambos, corpo e espírito, caminharam céleres
para longe da casa velha e também da infância.

Em meu rastro decidido foram ficando marcadas
inúmeras perguntas sem respostas,
amores mal vividos e temores não superados.

Vieram tantas outras perguntas,
e amores e temores e ausências.

Hoje, atrás da barba pouco espessa
e desse olhar pouco expressivo e oco,
eu homem escondo outros tantos fantasmas,
que igualmente me petrificam.
Ainda que eu não saiba se são exatamente reais.

Tudo o que eu diga, escreva ou cante
se constitui numa tentativa perene
de construir uma ponte sólida
que possibilite o encontro entre homem da cidade
ao menino assustado da velha casa da roça.

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