Tormentosas dúvidas

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Naquele tempo, Iuri Gagarin tinha cerca de vinte anos, e ser o primeiro homem a voar ao redor da Terra possivelmente fosse apenas sonho.

Eu, que sequer imaginava a existência de um lugar chamado União Soviética, estudava na primeira série do curso ginasial, no Instituto de Educação Torquato Caleiro. Isso, hoje, talvez corresponda ao que chamam quinto ou sexto ano, não sei bem, pois não frequentei nenhuma pré-escola, geralmente a gente começava estudar no primeiro ano. Vindo de uma infância no campo, enfrentava dificuldades de adaptação ao novo meio e dificuldades maiúsculas de aprendizagem, mesmo na matéria que o escritor José Mauro de Vasconcelos apelidara de “matéria de vagabundo”, em seu livro Doidão.

Meu professor de Geografia, o simpático senhor Garcia, desdobrava-se em esforços para fazer os alunos entenderem as provas (irrefutáveis, na opinião do mestre) de que nosso planeta era redondo como bola de futebol, apenas ligeiramente achatado nos pólos.

- Está querendo engambelar a gente eu pensava.

O homem explicava que seria prova cabal e definitiva quando um navio se aproximava do porto, a primeira parte visível era o mastro, ou seja, a parte mais alta da embarcação.

O homem fazia ginástica em classe. Em vão...

Minha escola não possuía mapa-múndi, a maioria dos alunos, eu inclusive, nunca vira retrato de navio, nem do mar. Do mar, aliás, eu sabia do barulho, porque lá em casa existia um caramujo enorme. A mãe dizia que viera do mar e que aquele som que a gente escutava, parecendo vento, era o do mar quando estava bravo. Falava que o mar era uma lagoa muito, muito grande, cheia de água salgada. Contava outras coisas mais e, entre os ensinamentos de Dona Sebastiana e as lições do professor Garcia, sempre escolhi a sabedoria da mãe.

Apesar dos pesares, eu gostava do professor Garcia, fazia força para compreender suas razões. Trepava no muro lá de casa, na Vila Nova, olhava a igreja matriz. A primeira coisa que eu via era a torre, entrando no céu, lambendo a nuvem.

- O senhor Garcia está engambelando a gente. Tudo é do mesmo jeito... a gente vê primeiro o lado mais alto, é claro...

Pensava, pensava...

Gostava do professor, não podia, porém, concordar com ele.

- Se a Terra fosse redonda, então tudo que estava em baixo caía, não sobrava nada. Adeus japonês, adeus tudo que é gente, tudo que é bicho, tudo que é coisa....

Num instantinho Iuri Gagarin voou, deu voltas ao redor da Terra, e eu ouvi que, além de redonda, ela é azul, o astronauta virou herói, ficou velho, morreu. Num instantinho eu saí da escola, fui trabalhar dobrado. A Terra deu tanta volta em torno dela mesma que ficou até meio zonza e se não fosse redonda, teria ficado.

Não acabaram, contudo, minhas dúvidas. Continuo cheio delas.

Hoje os meninos do ensino fundamental ligam aparelhos, percorrem galáxias, participam de guerras nas estrelas, explodem astros, pilotam transatlânticos, exploram o fundo do mar dentro de colossais submarinos. Serão felizes? Que mistério sobrou para as mães lhes contarem?

Toneladas de informações agora me chegam em reduzido espaço de tempo. Perco-me na tentativa de coordená-las. Por isso, penso no professor Garcia, nos seus colegas professores, penso na época de meus estudos de ginásio, relembro meus colegas de classe, as dificuldades de todos.

Penso sobretudo em mim estudante, em mim adulto. E me reconheço menino permanentemente desconfiado. E, ainda, cheio de dúvidas.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras