Aula de literatura, história e otimismo

Por: Sônia Machiavelli

No último sábado, convidada pela Feira do Livro de Ribeirão Preto, em sua décima terceira edição, tive a honra de apresentar Pedro Bandeira ao público que lotou o Theatro Pedro II: cerca de mil pessoas. Uso mal o verbo apresentar, na falta de outro, pois adultos, jovens e crianças que ali estavam demonstraram que já conheciam, de cor e salteado, o escritor que publicou até agora oitenta títulos e vendeu mais de 22 milhões de livros para o segmento infanto-juvenil.

Pedro, que parece abraçar a gente com um simples olhar, monopolizou a atenção o tempo todo, sendo aplaudido cinco vezes em cena aberta, para empregar expressão oriunda da dramaturgia, espaço que o escritor ocupou durante alguns anos de sua juventude. Além de ator, foi jornalista, publicitário, professor, e fez tudo tão bem que recebeu premiações em todas essas áreas onde a criatividade é muito exigida. Só aos 40 anos tornou-se “escritor de livro em tempo integral.” Tendo escrito para revistas histórias infantis que alcançaram grande sucesso entre os leitores mirins, decidiu-se a publicar o primeiro livro: O dinossauro que fazia au au. De lá para cá sua produção é vista como fenômeno de público e de crítica, somando-se ao seu currículo prêmios como o Jabuti (por O Fantástico Mistério da Feiurinha), o APCA (por A Marca de Uma Lágrima) e o Adolfo Aizen, outorgado pela Academia Brasileira de Letras.

A conferência de Pedro Bandeira versou sobre muitos temas ligados à nossa cultura. A colonização do Brasil, marcada pela exploração de nossas riquezas, e nenhuma vocação para o estabelecimento de famílias, foi um dos tópicos. As missões jesuítas, que ignoraram a necessidade da alfabetização para a leitura da Bíblia e privilegiaram a versão tupiniquim de algumas preces para estabelecimento da fé foi outro. Os portugueses católicos atuaram de forma diferente dos protestantes ingleses nas colônias, pois se aqui bastava a oralidade, por lá se fomentou o ensino do inglês para a leitura do texto religioso. A aprendizagem de uma língua nova requer um grande esforço não levado a cabo no Brasil nos primeiros tempos, haja vista que o nhengatu, língua desenvolvida a partir do tupinambá, foi falado até meados do século XVIII. A essas informações Bandeira aglutina outras, até desaguar nos índices de leitura no País, segundo pesquisa atualizada 4.7 livros ao ano. É muito pouco.

“Isso resulta de séculos de descaso”, afirma. E convence o auditório de que a melhoria deverá vir aos poucos, com o crescimento do número dos que estão lendo neste momento e transferirão à próxima geração esse gosto. Os autores que hoje têm levado milhões de crianças e jovens ao consumo de prosa e poesia são os responsáveis por fomentar este prazer que, sedimentado, será o fator multiplicador de leituras. “É muito mais no lar que na escola que tal gosto germina e se desenvolve”, conclui.

Para provar o encantamento que uma história pode provocar, Bandeira declama poema de sua autoria cujo personagem é Pedro Malazarte. Basta uma rápida passada de olhos pelas faces na plateia para perceber como as fisionomias se iluminam ao som das palavras rimadas, das frases bem ritmadas, do encadeamento da ação. Da expectativa à atenção, desta à surpresa, até chegar ao riso, muitas emoções perpassam centenas de rostos encantados. Assim caminhou para o seu final a conferência, que eu preferiria chamar de aula magna.

Veio então o tempo das perguntas e aquela, já esperada, foi a primeira a se colocar da parte de um jovem: “Então, Bandeira, quando terá continuação a aventura de Os Karas?” Ele se referia ao grupo formado pelos personagens Kadu, Crânio, Magrí, Kalu e Chumbinho, que já protagonizaram cinco narrativas detetivescas. Bandeira responde de forma evasiva, como quem já foi muito cobrado, e diz- “à hora em que reaparecerem dentro de mim”

Uma professora quer saber o que acha o escritor da obrigatoriedade de listar livros para os alunos e ele responde que antes de tudo é necessário conquistar o leitor, através de alguma forma criativa, seja pela característica de um personagem, seja pelo viés de uma passagem interessante do enredo. Conclui que o ideal (não fosse a necessidade de se ler para o vestibular...) seria oferecer muitos títulos e deixar à livre escolha.

Mais perguntas, mais respostas, mas o tempo é finito e o escritor deve encerrar, seu voo está marcado para daqui a pouco. Entretanto eis que irrompem no palco duas menininhas, irmãs, uma de seis, outra de três anos, trazidas pelos pais. Querem declamar para o autor um poeminha que é na verdade intertextualidade de alguns versos de Bandeira. Ele as acolhe, quer saber seus nomes, dá-lhes toda atenção, esquecido do avião. Escreve uma mensagem em cartões azuis que elas lhe oferecem. A mãe das pequenas, agradecida, abraça o escritor e lhe diz: “Elas nunca vão esquecer este momento”. Nem nós, penso. Nem nós vamos esquecer as quase duas horas em que um criador de histórias nos hipnotizou com sua inteligência, brilho, bom-humor e acenos esperançosos na direção do futuro.

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