Quatro estalos e uma saudade

Por: Everton de Paula

Acredito que, em Franca, poucos alunos tiveram a incrível experiência de ser aluno da professora de música Lúcia Gissi Ceraso. Tudo nela era diferente a voz de um marechal, o nariz aquilino, os olhos claros, os cabelos revoltos, o andar ritmado e absolutamente retilíneo, o biótipo de um tanque de guerra... Até a estampa de seus vestidos era diferente. Havia um, por incrível que pareça, pleno de desenhos de notas musicais. Era branco e, de espaço em espaço (como os havia!) surgia um curtíssimo pentagrama com a clave de sol e uma nota solta, uma semínima, pretinha, muito visível, distinta, como a nota dó que coincidiu (na hora do corte da costureira) ficar sobre a parte traseira, exatamente sobre o assento da nobre mestra. E quando ela se punha a escrever na lousa, literalmente o giz de cal sobre o quadro negro, seu corpo balançava além do normal, e aquela nota dó, num sobe e desce, ganhava destaque no palco da classe. Ouvindo os risinhos abafados, tendo o braço direito estendido para cima, o que levantava um pouco o vestido para sobre os joelhos, subitamente ela se virou para a turma mista e bravejou:

- Vocês estão rindo de minhas pernas? Vocês querem ver melhor?

E o insólito, o inesperado ocorreu. Dona Lúcia, respeitável docente sexagenária, levantou o vestido até a cintura e deixou os cambitos à mostra. As meninas fecharam os olhos e abaixaram imediatamente a cabeça, rostos em brasa. Os meninos, ah, estes, abriram os olhos o quanto podiam e levaram a mão à boca talvez para não rir, ou para não emitir um único piozinho que fosse, o que, com certeza, iria merecer um dolorido puxão de orelhas, um coque ou um tapa na nuca, e a inevitável visita à sala da diretoria, ficar frente a frente com o todo poderoso Júlio César D’Elia, o temido diretor de terno de linho branco e óculos raiban. O susto foi tão grande que até hoje, por mais que eu me esforce, não consigo me lembrar do que vi, apenas do que senti.

Suspense!

Dona Lúcia devia estar no auge dos sintomas da menopausa. Rosto avermelhado, mau-humor do cão, baixou o vestido, dirigiu-se à mesa e ribombou:

- Para casa! Para a próxima aula: 10 cópias, em papel almaço, do Hino Nacional Brasileiro.

- Mas, dona Lúcia... alguém teve a infeliz ideia de contra-argumentar...

A resposta da professora veio instantânea:

- Vinte! Vinte cópias... E ai de quem faltar!

- “Ai, Jisuis!”, alguém suspirou.

- TRINTA cópias! fulminou a mestra.

O silêncio que se seguiu foi algo que nem a física quântica hoje seria capaz de explicar. Bem, ao menos teríamos uma semana para a tarefa. Nada de Clube dos Bagres, nada de AEC, nada de cinema, nada de Balança Mas Não Cai... Só restava a missa de domingo, além, é claro, do pito dos pais. Era uma época em que palavra de professor valia mais que a do presidente da República, mais que a do próprio Papa.

Ô semaninha difícil aquela, rapaz! A gente mal acabava de escrever o “Brasil!” final e começava tudo de novo, em nova página, mais um degrau do martírio infernal. Somente mais tarde, bem mais tarde é que vim a entender a famosa expressão Pedra de Sísifo! Era aquele trabalho, aquela tarefa para casa, aquele castigo.

Mas não ia ficar barato.

Corria mês de junho. As festas juninas se aproximavam. De modo que não podíamos ficar assim sem revanche. É claro, sobrou para mim, o Godofredo, o Tião Miranda e o Messias a tarefa de bolar um plano de vingança. Lambíamos os beiços a cada ideia sugerida. Uma delas vingou. Como o mais velho de nós tinha 14 anos de idade, a mocinha dos Fogos Teixeira, ali na Padre Anchieta, negou a venda de bombinhas mais fortes, aquelas de quinhentão. Só poderia nos vender estalinhos de salão. E assim fizemos, depois de uma suada vaquinha.

A fatídica quinta-feira chegara. Levantei-me bem cedo, pus-me dentro do uniforme cáqui, com o bordado IETC na manga curta esquerda, em azul, do ginasial. E lá fui eu. No céu, os ares de junho varriam montículos de nuvens para um canto perto do sol.

Enfim, a aula de Música. Pela janela da sala pudemos ver a picape Aero Willys branca e marrom da dona Lúcia contornando o jardim do estacionamento.

- Ela veio, turma, ela chegou. Ela não faltou. Todo mundo fez a lição?

- Siiiimmm, respondeu a classe, mostrando as mãos meio inchadas, pareciam até um pouco azuladas. Talvez a tinta da caneta houvesse vazado e manchado os dedos, ou talvez uma pequena trombose. Mas nós, os bestas do Apocalipse, haveríamos de vingar a turma.

Antes de a professora chegar, cuidadosamente colocamos uns três ou quatro estalinhos de salão embaixo de cada perna da cadeira de professor. Ia ser um susto daqueles. Ela haveria de se assustar, não era possível?

Não sei se o leitor sabe o que seja estalinho de salão. Trata-se de um pouquinho de pólvora misturada a umas minúsculas pedrinhas, comprimidas numa trouxinha de papel, que estourava ao menor atrito. Um pequeno ruído, capaz de fazer pardais levarem susto e deixarem os fios dos postes em direção aos céus claros de nossa adolescência. Imaginem uns quinze estourando ao mesmo tempo!

Pronto. Os estalinhos de salão estavam arranjados sob cada uma das pernas da cadeira. As meninas reprovavam com um veemente sinal de não com a cabeça. Mas as meninas... Ora, as meninas, com aquelas saias azuis plissadas, meiazinhas brancas cobrindo o tornozelo... As meninas que por enquanto mereciam nosso desprezo, e depois seriam o alvo de nossos coraçõezinhos...

A fera havia chegado. Silêncio sepulcral. Novo suspense.

Dona Lúcia parou na porta da classe. Olhou a turma. Acho que de propósito, ela estava com o mesmo vestido de notas soltas. Provocava... Ela gostava de provocar! Acho que seu prazer era ver um aluno irritado. Eu tinha um olho nela e outro olho na cadeira. Tudo era possível acontecer dali em diante. Godofredo empalideceu e fez um movimento no sentido de dirigir-se à cadeira e desfazer a armadilha. Tarde demais. Dona Lúcia estava a dois metros da cadeira.

Algumas meninas taparam os ouvidos. Outras fizeram o sinal em nome do Pai.

Os meninos estavam com cara de “ai-meu-deus-que-será-disso”! Dona Lúcia subiu no estrado e levou a mão direita à cadeira.

No próximo sábado eu continuo esta narrativa, baseada numa história verdadeira.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras