Na Natureza Selvagem

Por: Maria Luiza Salomão

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“... me dê a verdade.”
Thoreau,
cit. no filme
Na Natureza Selvagem.

Um filme sobre a história real de um jovem, Christopher McCandless, 23 anos, que busca a sua verdade no selvagem mundo (intocado pela civilização), cheio de vida, de questionamentos, aberto ao mundo, de personalidade ascética. Para um garoto que cursou Antropologia, podemos pensar que ele procurava sua essência, não menos do que isso.

O roteiro retraça uma trajetória, como a de um herói mítico, em capítulos: Infância, Adolescência, Idade Adulta, Família e “Tornando-se sábio”. Na Infância, Christopher encontra um casal de hippies na estrada, e há um tipo de adoção mútua. O casal torna-se, simbolicamente, os pais de Christopher. A mulher reencontra em Christopher o filho que se tornou andarilho, ao qual não mais reviu. Christopher “nasce” e se nomeia Alex Supertramp (Super andarilho). Na Adolescência, Christopher, agora Alex Supertramp, encontra um grupo que trabalha no campo, homens mais velhos, beberrões e inconsequentes, mas trabalhadores e ligados afetivamente entre si. Aprende com eles um ofício, sua, ganha dinheiro e desfruta a natureza à larga, sentindo-se melhor preparado para a “grande” aventura. Alex Supertramp anseia o Alasca, o mítico lugar, distante, inatingível, selvagem. Alex Supertramp traça o seu Norte, sua saga, a revolução espiritual, “quebra do falso eu interior”. A força adolescente que o impele para o essencial, para a verdade, o “arco da promessa” (Caetano Veloso).

(Que pensamentos selvagens, no interior de nós mesmos, precisamos domar? Com quais feras interiores, selvagens, devemos aprender, corajosamente, a conviver? Quais fomes reconhecer, no íntimo, para saber, saborear, quem somos? Quais desejos selvagens nos atacam, interiormente, atacando os nossos mais próximos, e que precisamos nomear, integrar ao nosso “eu”?)

Christopher-Alex quer uma viagem de ida e volta, mas apaga os seus rastros no caminho, bem ao contrário de João e Maria que, prudentemente, queriam regressar aos pais.

Na Idade Adulta Alex-Christopher confronta a Natureza, não mais lugar de gozo, não mais gentil... No capítulo Família, Alex encontra um velho, Franz, que o ensina no ofício de trabalhar com o couro. Ele, então, fabrica um cinto de couro, desenha nele os lugares onde passou e o que aprendeu. O cinto, objeto síntese do andarilho, registra a sua viagem épica. Cinto que também marca o sofrimento do seu corpo. Alex não consegue encontrar meios na Natureza de se alimentar. Os “furos” no cinto, sinais do emagrecimento, mostram seu despreparo para conviver com a selvagem Natureza. Alex-Christophe deixa marcas nas pessoas que encontra “on the road”. Elas doam coisas para Alex Supertramp, e ele se desfaz da tralha a cada pedaço do caminho. Gestos que falam por si mesmos.

Flash-backs e a voz “em off” da irmã ajudam a pontuar a história do rapaz e sua relação com os pais, sua decepção, e a sua verve para buscar a verdade, a sua verdade, longe da vida de mentiras e de hipocrisia, com a qual conviveu em família. A selvageria inóspita da Natureza é a grande metáfora, tudo o que o herói mítico precisa enfrentar para se desenvolver. Rito de iniciação. Levar adiante a aventura (interna e externa) sozinho pode ser mortífero e cruel.

“Tornando-se sábio”, é o epílogo trágico na vida do herói, que não conto aqui, mas que vale a pena conferir, assistindo ao filme, escolhido para apresentação no Cinema e Psicanálise hoje (veja Serviço, abaixo). Alex imortaliza a sua conquista espiritual: o reencontro consigo, sua origem e destino.

“Quem quiser falar com Deus”, diz Gil na canção, (tem que) “caminhar decidido pela estrada que, ao final, vai dar em nada... nada... nada... nada...nada... nada...do que pensava encontrar...”


DIRETOR, ROTEIRISTA, ATOR

Sean Penn

“todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.
Tolstoi.

Diretor e roteirista do filme Na natureza selvagem, de 2007, Sean Penn tem uma carreira sólida de ator, com dois Oscar. Ele diz que qualquer que seja o filme que escolha dirigir, atuar, ou produzir, ele quer vê-lo relacionado a uma compreensão do hoje e do amanhã. O filme Na Natureza Selvagem permite uma reflexão sobre o hoje e sobre o amanhã: há, na juventude, enquanto passagem, uma rebeldia (uma força em busca de sua verdade) que é manifestação de Vida, e que mal canalizada pode desencadear em destruição e morte. Isso interessa, interessou e interessará a qualquer sociedade que se queira civilizada e não deseje para si a barbárie.

Sean Penn aguardou por 10 anos a aprovação da família Candless para elaborar o roteiro de Na Natureza Selvagem, baseado no livro do jornalista e alpinista Jon Krakauer, de 1996, que ficou dois anos na lista de Best Sellers no The New York Times. Christopher McCandless cursou História e Antropologia, antes de se tornar mochileiro, era apaixonado leitor da obra de Tolstoi (1928-1910), Jack London ((1876-1916) e Thoreau (1817-1862), autores que cultivaram um grande amor à Natureza.

A trilha sonora do filme é maravilhosa: Eddie Vedder compôs sozinho e interpreta as 12 faixas (vocalista da banda Pearl Jam).

Todas as vezes que me aproximo do pensamento de Sean Penn, em suas obras e nas suas raras entrevistas (ele evita a imprensa), sinto-me ampliada e iluminada. Há nele uma atitude forte: convicção e fé no humano, naquilo que ele possui de verdade (na transpiração e no esforço).

Serviço
Título: Na natureza Selvagem
Onde: Sede Campestre do Centro Médico
Horário: 15 horas
Palestrante: Fátima Cassis

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