Perfume de flor

Por: Eny Miranda

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O cheiro era de flor. E evocava algum momento especial - íntimo e ainda obscuro. Sentiu-o ao abrir a janela da cozinha. Na varanda, sobre a mesa grande de vidro, as orquídeas brancas, graúdas, vistosas, absolutas. A brisa leve da manhã passava por elas e trazia aquele perfume, conhecidoe indecifrável.

Presente de uma amiga querida, as orquídeas chegaram havia seis meses e nunca exalaram tal odor, nem pararam de florir. Os cachos, níveos, estavam sempre viçosos; as hastes, continuamente abotoadas. O filho orquidófilo chegou a ser consultado sobre este singular fenômeno de perenidade. Mas não encontrou para ele qualquer explicação. Especulava.

- Mãe, você usou nelas algum hormônio?

- Só água, luz e ar puro, repetia-lhe a mãe. E estão adorando esse lugarzinho, na varanda.

Nova lufada fresca e novo evolar-se de aroma gostoso, familiar - e incógnito - penetrando-lhe as narinas e desafiando sua mente.

Inspirava fundo. Quem sabe assim o perfume pudesse alcançar recantos esconsos da memória e desvelar algum momento especial ali impresso com seu buquê? Porque sabia que o olfato é o mais primitivo e o mais duradouro dos sentidos; que cheiros ficam guardados em arquivos, às vezes, de difícil acesso, mas alcançáveis, e podem trazer de volta o passado em um suspirar de alma; sabia, como Marcel Proust, que “quando nada subsiste de um passado antigo [...] o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas [...] sobre as ruínas de tudo o mais”.

Mas a alma aromática trazida pelo vento apenas sugeria que eram especiais o momento e a matéria em que vivera, perdidos ambos no tempo; não abria portas para o seu retorno, principalmente quando a lembrança era deliberadamente invocada.

Onde estaria aquele sensível e fugidio instante?

Aspirava, inalava, buscava...

Olhou mais uma vez as orquídeas, serenas, soberbas. Não, definitivamente o aroma não era delas. Mas...

Em que ponto do espaço-tempo o vivido e o imaginado se encontram?

Mudam as cores, mudam as formas, fica a essência, num átimo renascida.

As florinhas, muito pequenas, são de um branco-esverdeado que passa à alvura da neve à medida que expõe sua intimidade à luz. E, ao contrário de suas orquídeas, são criaturas efêmeras, muito efêmeras. Do desabrochar à frutificação e à maturação completa vão-se pouco mais de quarenta dias. Acrescentem-se sete para a queda dos frutos -negras, luzentes pérolas, saídas das brancas e sedosas ostras - e tudo está acabado.

Não na memória.

Além da delicada beleza, há o perfume. E perfume é resgate. É abertura de portas e comportas. É desfazimento de limites e ponteiros; de cores, formas e distâncias. É nova dimensão cromática e morfológica; nova concepção cartográfica e cronológica; novo espaço, sem fronteiras e sem tempo.

Está no quintal da casa de uma amiga. À sua frente, coberta de flocos branquíssimos, arminho em pelagem de inverno, neve dos dezembros europeus que atravessam hemisférios e pousam nos galhos de uma árvore em [outono] francano, uma jabuticabeira em flor!

Lera em algum lugar que jabuticabas são mais do que frutas: são pequenas memórias de infância. Lera também que toda matéria é música em estado sólido. Lera tais afirmações e as ratificara, por considerá-las verdadeiras.

Contudo, agora - porque continuava não sabendo de onde viera o odor daquela manhã - passa a guardar na alma as orquídeas brancas como perfume. E perfume é música e memória.

Este é de jabuticabeira. Jabuticabeira em flor.

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