Livros e leituras...

Por: Jane Mahalem do Amaral

Atualmente ando me preocupando com os meus livros.

A preocupação se deve ao fato de que vou comprando e começando a ler cada um, a cada compra que faço. Mas o que está acontecendo é que, às vezes, estou lendo cinco livros ao mesmo tempo. Ou então, compro porque não resisto ao desejo, e lá fica ele, na estante, me olhando e me esperando numa fila que não tem fim. Outro dia fiquei mais confortada quando Sônia Machiavelli escreveu em uma de suas resenhas que também ela vivencia esse processo: “Porque me acontece isso, de comprar e não conseguir sequer folhear de imediato e me esquecer do título”. São dois impulsos: comprar e correr para ler, ou comprar e aguardar pacientemente na fila que também tem uma ordem. Será que isso é saudável ou pode ser algum distúrbio de excessivo amor e respeito pelos nossos livros? Penso que nossa história de vida é que poderá nos revelar essa resposta. Mas o interessante é que vivo envolvida por capas, autores, papéis e cheiros... Sim, porque os livros tem cheiros e sabores. Podemos sentir isso, concretamente, durante uma leitura envolvente. Livros têm vida própria. Eles nos olham, nos espiam, nos provocam e nos abraçam... Sônia continuou dizendo na sua resenha: “fui atraída por um título que me gritava do alto da estante, me implorando para retirá-lo da ordem onde o inserira, no rol dos livros ainda por ler...” Sim! Eles gritam quando querem sair de lá. O lado bom disso é que tenho sempre com quem conversar, a ponto de me sentir bastante incomodada, quando em uma profunda e gostosa conversa com meus livros, alguém me chama ou tenho que parar por outros compromissos. Sinto, às vezes, que preciso até pedir desculpas pela brusca interrupção. O lado ruim é que vivo querendo vencer minhas limitantes barreiras pessoais para dar conta de todos os chamados de leituras. É verdade, que com o passar do tempo, percebo que vou fazendo escolhas mais focadas no caminho e nos assuntos que me alimentam hoje. No entanto, há os amores antigos, aqueles que não morrem e lá estão também todos os livros que eu gostaria de reler. De um jeito poderoso e forte, Grande Sertão: Veredas me pede para ser relido. Machado de Assis me olha de soslaio e me pergunta se eu não gostaria de refletir, mais uma vez, sobre as Memórias Póstumas de Brás Cubas, enquanto numa esquina sombria Clarice Lispector me acena com A Paixão segundo GH. Cecília Meireles não se cansa de me dizer: “Canto porque o instante existe e minha vida está completa, não sou alegre, nem sou triste, sou poeta”, enquanto Drummond me pede, carinhosamente: “Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos”. Fernando Pessoa, Bandeira, Manuel de Barros e Mário Quintana esperneiam poesias e, quase à força, elas pulam para fora das páginas. As duas lindas mulheres, Adélia Prado e Cora Coralina, docemente me envolvem em carinhoso abraço. Quantos outros me provocam e me esperam... Continuo minha indagação: O que fazer com tanta gente querendo conversar comigo? Como escolher?

Percebo na minha breve análise que tenho hoje um autor que me envolve mais e me ajuda na minha caminhada. É Jean-Yves Leloup. Não é literatura, mas um texto que faz uma aliança entre ciência e espiritualidade. E lá estão também seus inúmeros volumes, em fila, para serem lidos. Estou em namoro com os seus Evangelhos considerados apócrifos: Evangelho de Maria, de Tomé, de Felipe traduzidos do copta e comentados por ele. E o que vai me ajudar a decidir por qual deles começar ? Continuo a refletir com Sônia Machiavelli: Eles continuam lá “até que algo misterioso se impõe e me sinto desejosa de abrir o volume e começar a viagem.”

Esse mistério também é fascinante, pois o livro certo vem sempre na hora certa.

Acho que não preciso me preocupar. Eles me entendem e serão capazes de esperar... Ou quem espera sou eu?

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