O xale de lã

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Nunca fizera tanto frio como neste ano. Ela já vivera bastante, tinha enfrentado gélidos invernos, mas nada como a sensação que sentia agora. O ar frio do anoitecer entrava pelas frestas da veneziana e parecia lhe roer os ossos. Sua pele flácida, descarnada, embora coberta com grossas roupas, mal suportava esta agressão térmica. Durante o dia , enquanto o sol brilhava, ficava melhor. Seu quarto dava para o jardim, onde suas plantas preferidas brindavam viçosas, a cada novo amanhecer. O velho jardineiro as acariciava com seus cuidados. Elas retribuíam com coloridos e aromas especiais. Podia abrir a janela e deixar o calor solar penetrar, trazendo uma quentura gostosa, amarela, cheia de vida. Aproveitava esta paz quente para, sentada em sua cadeira de balanço, deliciar-se com suas leituras, suas músicas, seus crochês, suas orações. Quando a luz diurna se esvaía, para se livrar do desconforto do escurecer, recorria ao seu xale de lã, macio, tépido, caricioso, presente que guardara há muitos anos. Ele era azul intenso, como o lenço da Moça com brinco de pérola, que o pintor holandês Vermeer imortalizou. De pura lã de carneiro, grande, acolhedor, tinha nas suas pontas listas brilhantes, de várias larguras e cores. Fazendo contraste com o inigualável e precioso azul, o vermelho, o verde, o amarelo, o branco e o preto. Franjas escuras finalizavam aquela sequência colorida. A linguagem das cores a acalentava. Sabia entendê-la e reconhecia sua mensagem calorosa e humana. Voltava no tempo a se lembrar de quando o ganhara, ainda bem jovem, e a alegria de receber um presente, de tão longe, de outro país, vizinho ao seu. Nestas noites de intensa friagem, só depois de colocar o xale em suas costas finas e sentir-se abraçada é que conseguia um pouco mais de conforto. Este provinha não só da lã, mas das lembranças e da emoção que vivera.

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