Uma lágrima para Tatiana Belinky

Por: Sônia Machiavelli

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Da mesma família intelectual e espiritual de Pedro Bandeira (1941), Ruth Rocha (1931), Ana Maria Machado (1941) e Lygia Bojunga (1932), ela era a mais velha. Dedicou-se durante sua longa vida a escrever para o segmento infantojuvenil com um frescor de flor imarcescível, que a recortou nas letras nacionais. A vasta cultura, o pertencimento a família de leitores, a infância na Rússia, o ‘transplante para o Brasil’, como ela denominou a mudança de país, o gosto pelos autores clássicos europeus - tudo isso e mais alguma coisa de caráter íntimo e inextricável a perfilaram como escritora cosmopolita que estava sempre surpreendendo o leitor.

Durante sua existência criou mais de centena de textos, e recriou outros pela via da tradução, como o atemporal A Torre do Reno, de Jukovsky, pertencente ao gênero horror, que as crianças tanto temem quanto adoram. Às quadrinhas populares russas a que sua transposição para o português conferiu melodia e ritmo, justapôs o uso da intertextualidade que trazia à cena autores como Tchukovski e Liermontov. Não raro oferecia ao leitor peças de teatro como O macaco malandro, passível de ser interpretada por três crianças no mais prosaico dos cenários. E foi graças à sua capacidade de levar para a dramaturgia a linguagem literária que ela mostrou na televisão a primeira versão de O Sítio do Pica-Pau Amarelo. Grande admiradora de Monteiro Lobato, foi responsável por tornar sua obra ainda mais conhecida, no Brasil e no Exterior.

E havia os limeriques. Foi ela quem os apresentou aos brasileiros, importando-os da Irlanda via Inglaterra, mais exatamente de seu maior cultor, Edward Lear. Chamou-os limerix e eles constituíram inesgotável fonte de onde brotaram Mandalix, Bregalix, Cacolix, que reunidos a outros formaram O Livro dos Disparates Limeriques da Tatiana. Estrofes de cinco versos, primeiro, segundo e quinto com nove sílabas rimadas; terceiro e quarto mais curtos, também com rimas, os limeriques têm ritmo saltitante e humor non sense, o que agrada em cheio crianças que começam a descobrir a musicalidade e o caráter lúdico da linguagem. Em um de seus livros a escritora os define assim: ‘Os limeriques são historinhas/ contadas em só cinco linhas/ ritmadas, ligeiras/ com rimas brejeiras: histórias bem maluquinhas’.

O gosto pela palavra, desconfio de que tenha sua gênese tanto num talento peculiar, e isso soa lógico, como no fato de ser a escritora uma estrangeira, que teve de aprender a língua do novo país onde se fixou. Essas duas características confluíram para um ouvido apurado que soube perceber as peculiaridades de um idioma em relação a outro já dominado, e descobriu nele toda potencialidade sonora que talvez escape a falantes nativos. Na maioria de seus livros esse gosto pelo som e pelo ritmo imprime registro de marca, como se pode atestar em E agora? onde a palavra assume musicalidade que seduz o leitor: a ênfase na rima em ‘ora’ cria um efeito crescente de expectativa que se desfaz em anticlímax no final, provocando reação bem-humorada.

Para leitores de todas as idades, para quem entende a poesia como magia da linguagem, cuja serventia pode ser assegurar a continuidade do idioma e renovar imagens da vida e do ser humano, mas cujo fim último é mobilizar emoções, sugiro a leitura de Um Caldeirão de Poemas. Alguns textos são criação da autora. Outros, transcriação, pois ela vai muito além da tradução ao nos apresentar textos de Emily Dickinson, Goethe, Bergengruen, Heine, Le Gallienne, Pushkin, Robert Louis Stevenson, Lewis Caroll e até Walt Whitman, que comparece com o famoso Navegar. As ilustrações são obras de arte assinadas por autores como Gonzalo Cárcamo, Cris Burguer, Florence Breton, Ivan Zigg, Luli, Odilon Moraes e Spacca, entre outros.

Na apresentação do livro, Nelly Novaes Coelho, doutora em literatura, diz que ‘a poesia é uma das linguagens da vida’ e sugere ao leitor descobrir isso no caldeirão de versos onde poemas, limeriques, canções, parlendas, cantigas, acalantos e odes são convite a mergulho do qual todos saem mais enriquecidos em termos de sabedoria e sentimentos, dois traços de nossa humanidade.


IN MEMORIAM (1919- 2013)

Olhar sobre a infância

Tatiana Belinky nasceu em São Petersburgo, uma das mais belas cidades da Rússia, em 1919. Por causa de conflitos armados sua família fugiu para Riga, capital da Letônia, quando a menina tinha dois anos, ali permanecendo até 1929. Neste ano, os Belinki emigram para o Brasil, onde se fixaram definitivamente.

De temperamento afável, logo se enturma na escola, onde o convívio a ajuda rapidamente a dominar o português. Aos 18 anos já trabalha como secretária bilíngue, fluente que era em russo, alemão e letão. Aos 20 cursa Filosofia na São Bento. Aos 21 casa-se com o médico e educador Júlio Gouveia, com quem tem dois filhos.

Foi em 1948 que começou a trabalhar em adaptações, traduções e criações de peças infantis, em parceria com o marido. Quatro anos depois o casal aceita o convite da TV Tupi para fazer a adaptação de um clássico infantil, Os três ursos. Diante do sucesso, ganha um programa fixo na emissora. E faz a primeira adaptação para a TV de Sítio do Pica-Pau Amarelo.

A partir de 1972, Tatiana passa a trabalhar na TV Cultura e a assinar resenhas e críticas de literatura nos grandes jornais de São Paulo. Apesar do intenso envolvimento com o universo infantil, somente aos 65 anos desponta como escritora com o livro A operação tio Onofre. A partir de então dedica-se integralmente à escrita e produz uma centena de títulos.

Poeta, tradutora, dramaturga, pioneira da televisão no Brasil, ganhadora de vários prêmios, inclusive um Jabuti, Tatiana Belinky tratou a criança com o máximo respeito num país onde nem sempre ela é levada a sério.

Morreu no dia 15 deste mês, em São Paulo. Tinha 94 anos e uma lucidez espantosa.

Serviço
Título: Um Caldeirão de Poemas
Autora: Tatiana Belinki
Editora: Companhia das Letrinhas
Número de páginas: 78

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