Casca de banana

Por: Caio Porfirio

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Estou me lembrando dela. Sumiu, há anos. As nossas virações, os passeios, os agarrados à noite, nas ruas desertas, aquele escorregão que ela levou, perdendo o sapato e quase esfolando o pé. E passou a me culpar por isto. Como? Ela que, avoada, escorregou na casca de banana. Gritou e me culpou. Acordou um dos vizinhos do outro lado da rua, que acendeu a luz, abriu a janela, olhou, depois se recolheu e apagou-a. E ela falando, falando, culpando-me, xingando-me como uma louca. Mostrei-lhe a casca da banana onde pisara. Não adiantou. Dei-lhe um tapa. Claro! Quem ela pensou que era? Mandei-a para aquele lugar, sim, mandei-a. Meti-a, na marra, no carro, aos empurrões, para levá-la para casa. E não tínhamos bebido nada. E ela falando, falando, culpando-me, que isto, que aquilo, um inferno, uma metralhadora. E que o dedo estava doendo, que perdeu um sapato, que eu tinha de lhe dar um par de sapatos novos, um auê dos diabos. Deixei a casca de banana de lado e voltei a mandá-la para aquele lugar um milhão de vezes. Entrou em casa descalça, o outro sapato na mão, fazendo um comício contra mim e dizendo que não queria mais me ver. Pode? Fui embora na disparada e quase entro na contramão e bato num carro, que buzinou sem parar.

Pronto. Não nos vimos mais, nem nos telefonamos. Meti-me com outros amores. O tempo passou, os anos correram. E eis que hoje, de repente, me lembrei dela. Não sei por onde andará. Veio-me uma ponta de saudade. Tivemos momentos inesquecíveis. Era meio avoada, mas doce e amorosa.

Tudo bem. São coisas da vida. Passou. Deixa pra lá. Depois de tanto tempo me vem essa lembrança viva, ela quase presente.

Vou dar o meu passeio matinal. Tirá-la da cabeça. Tranco a casa, cumprimento alguns vizinhos e vou girando pelos quarteirões de sempre. Tento assoviar, o som sai murcho. E vou andando. E vejo ali, à minha frente, sobre a calçada, uma casca de banana. O ódio me domina de repente. Mais berro do que falo:

- Jogar essa porcaria no chão! Devia ser preso! Vá!!!

Chutei-a com tanta violência que ela voou e foi silenciosamente pousar e dormir na calçada em frente. Passantes olharam-me curiosos e assustados.

Segui em frente, olhando, com um pouco de pena, para a casca de banana, que me lembrava a outra do passado e praticamente corporificava, ao meu lado, a figura meio avoada, mas doce e amorosa, de tantos passeios noturnos, entre afagos, pelas ruas desertas da cidade.

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