Cafeeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Faz sete anos mais ou menos, o Fernando, dirigente do Senhor Café, trouxe lá do sítio da sua mãe, uma muda de café. Com habilidade de comerciante, convenceu o jardineiro de então a plantar o balainho e cuidar daquele filhote de árvore. O homem aceitou a incumbência e, desde anos, o cafeeiro enche os olhos de quantos, em meio ao corre-corre, deixam a vista pousar, por um momento, nas verdes dádivas de Deus.

Robertão, o ex-ás do basquete, é uma dessas pessoas. Preocupado com a preservação das árvores e canteiros, foi sempre aliado do Fernando na dispensa de cuidados extremos ao pé de café. Assim foi que, em conversa, ambos concluíram que se fazia necessária uma poda no cafeeiro. Acordados, Fernando providenciou pequeno serrote e os dois se desincumbiram da tarefa a contento.

O que ninguém esperava, porém, aconteceu.

O Robertão tomava café, lia o jornal. Fernando distribuía cordialidade, recebia moedas, quando alguém advertiu.

- Gente, presta atenção no rádio.

A atenção da maioria sintonizou a voz do radialista Valdes Rodrigues, ficaram sabendo que ele comentava denúncia recebida de que pessoas desalmadas haviam derrubado o cafeeiro da Praça Barão a golpes de motosserra.

O Fernando e o Robertão foram os primeiros a chegarem à porta do estabelecimento, a olharem para fora. Ficaram aliviados, pois o enorme pé de café continuava dono do canteiro, suas folhas e galhos balançando, obedientes ao vento do topo da colina.

Fernando me contou o ocorrido. Estava verdadeiramente aborrecido.

- Não esquenta. Cada um lê o que quer.

Procurava consolar o amigo, enquanto pensava. Pensava eu na quantidade de aborrecimentos que me causaram a interpretação errônea de textos meus. Muitas vezes fui, inclusive, ameaçado - tudo motivado por má interpretação de atos e de textos. Eu só quis homenagear ex-colega de futebol, eu só quis brincar com amigo de anos. E parentes e conhecidos das pessoas transmudadas em personagens de ficção, ameaçaram-me com processos, com o punhal da Justiça.

- Deixa pra lá, Fernando.

Ao invés de mudas de café, busco plantar e cultivar ideias. Dificilmente as sementes germinam. Quase nada do que plantei cresceu tanto quanto o cafeeiro da Praça Barão. E já passei também muita raiva, já senti muita tristeza. Por isso, compreendo o aborrecimento do Fernando, estou solidário com o amigo.

Não há o que fazer, todavia.

- Deixa pra lá, Fernando.

A vida é assim mesmo: cada um lê o que quer.

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