A Força muda

Por: Maria Luiza Salomão

Há uma Força cega, surda, intensa, incontrolável - muda - que nos habita e nos governa, da qual somos inconscientes. Ela é anárquica, indócil, terrível e vital, como um garanhão selvagem que não se cavalga. Há na Massa que constitui a sociedade a mesma Força: gigantesca e indomável. A palavra “massa” é incomensurável: significa mistura, gororoba de liquidificador.

Dentro do “mim”, a massa indiscriminada, nem corpo nem alma, enxurrada que nos toma, age sem dó nem piedade. O melhor e o pior do “mim” se manifestam nos “eus”, que tentam em vão direcionar a Força. Direcioná-la, canalizá-la talvez seja possível, se direção ou canal se acordarem no rumo inexato dela.

Quando essa Força - que não envelhece - irrompe, individual ou coletivamente, temos o Assombro, o Terror, a cega intuição de sua vizinhança, apenas pressentida. A Força não é do Bem, nem do Mal, vem das entranhas e é considerada estranha. No filme mítico, “Guerra nas Estrelas” ouvimos sobre ela: “Eu tenho a Força”, “A Força nos guiará”.

Temos uma Força nas ruas brasileiras, que vem de uma Massa jovem, acéfala, sem direção. Essa Força mudou os rumos da política. Os jovens, como em toda e qualquer época, deflagraram a mudança. Já andava preocupada com a juventude: com a ausência de ideais, de perspectivas. Tanta obscenidade os políticos estavam dando ao povo brasileiro! Tanta hipocrisia! Surgiu essa Força sem aviso prévio. Os jovens abandonaram os computadores, os colonizadores celulares, e estão vivos por aí, nas ruas, segurando cartazes (e não cervejas). Uma Força em movimento, para o Bem e para o Mal. (A Força é a Força!) Se quisermos rumos, perspectivas, temos todos - que pôr a mão na massa. Eles pedem cidadania.

Aparentemente querem tudo, o que equivale a querer nada: o que é e não é verdade. Olhando para o movimento dos jovens de 68 também queríamos tudo, e brigávamos entre nós mesmos por quase nada. Espero que eles não nos repitam nisso, e que os “velhos” não queiram colocar palavras antigas nas suas jovens bocas, retroagiríamos aos maneirismos de então. Temos uma força muda, hoje, como memória de futuro.

Dia 20 de junho, em Franca, fui de branco, sem partido. Senti falta de um “caixotinho”, de alguém que nele subisse para unificar a miríade dos dizeres dos cartazes. Ninguém falou, e éramos dez mil: uma cobra viva, em dez mil silêncios diferentes, tambores-corações. Reconheci a Força, do meu posto de observação, lembrei da canção “pacato cidadão” (Skank).

Mudar é verbo intransitivo, presente histórico e memória do futuro assim digo “A Força Muda”. Quando qualifico o sujeito: A Força muda, penso duplamente no sujeito: Força (inconsciente) e Força materializada (massa). Que a Força nos permita passar de assujeitado para Sujeito: nós a nós; nós sobre nós; nós de nós. Em tempestade de areia é prudente permanecer no lugar em que somos por ela surpreendidos, diz o provérbio chinês. Cessando a turbulência, a paisagem muda e... mudamos.

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