Saramandaia e Surrealismo

Por: Sônia Machiavelli

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O corrupto Zico Rosado põe formigas pelo nariz, quando irritado. João Gibão disfarça o par de asas que lhe cresce nas costas. O esquisito Aristóbulo se transforma em lobisomem às sextas-feiras. A obesa Dona Redonda come até arrebentar. O estressado Cazuza, que bota o coração pela boca, ressuscita no velório. A apaixonada Marcina tem roupas incendiadas em contextos eróticos. O falecido Belisário reaparece em casa para dançar com a mulher. Estes e outros personagens de Bole-Bole, espaço urbano concebido como representação do Brasil, foram criados por Dias Gomes, que surpreendeu o país em 1977 com novela que ficou na história e agora volta como minissérie na mesma Globo, no horário das 23 horas: Saramandaia.

Mas não é reprise. Trata-se de revival, remake, revisitação feita por Ricardo Linhares, que recebeu carta branca para dirigir. Mantendo o espírito do texto, vigoroso demais para sofrer qualquer alteração, retirou o sotaque nordestino da primeira versão e somou às personagens originais outras criaturas: a empresária que se derrete de amor; a matriarca que conversa com galinhas invisíveis; o homem que criou raízes na sala. No conjunto, todas são aparentadas a Melquíades, o cigano que volta à vida em Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez; ao homem que descobre uma máquina que reproduz realidades passadas, em A invenção de Morel, de Jorge Luís Borges; ao jovem Pedro Páramo, em delirante busca por seu pai no romance homônimo de Juan Rulfo. Também estão próximas da criança que se recusa a crescer em O Tambor, de Gunter Grass, e de Gregor Samsa, o moço que virou inseto, em A metamorfose, de Franz Kafka. É possível que este tenha sido o primeiro ficcionista a colocar na literatura criações onde se fundem o u
niverso mágico e a realidade, mostrando elementos estranhos como se fossem corriqueiros.

Dentro do microcosmo que constitui este tipo de narrativa, não há surpresa (por exemplo e para manter o foco na minissérie televisiva) entre personagens se um deles voa ao céu e outro fragmenta-se no ar, se uma se incendeia involuntariamente e outro move o enorme sino da igreja com a força do pensamento, pois todos pertencem ao universo onde as leis da lógica são totalmente ignoradas: realia et mirabilia reunidas instauram um tipo de discurso ausente de tensão. Estes contos e romances inovadores são de datação recente em termos históricos, e estão muito associados ao que se produziu na América hispânica e no Brasil em meados do século passado. Neste período, entre os anos 60 e 90, países latino-americanos passavam por processos ditatoriais, onde a censura se exerceu de forma inclemente sobre a criação artística.

Assim, ideologicamente o realismo mágico surge como forma de burlar o censor, usando o elemento fantástico como metáfora de incômodo, excesso, opressão, consumição, sofrimento, fragmentação; mas algumas vezes também como expressão de deboche, ironia, humor. Literariamente, sua gênese parte de uma reação ao realismo/ naturalismo/regionalismo que vigorou até meados do século XX, mas também se revela como reflexo da contraposição da tecnologia à superstição, nas culturas latino-americanas de meados do século passado. No nosso tempo já se fixou como um modo narrativo que espelha gostos, escolhas e demandas do ficcionista que desenvolve um estilo extremamente plástico.

Garcia Marquez ( Colômbia), Vargas Llosa (Peru), Júlio Cortazar (Argentina), Carlos Fuentes (México), Miguel Angel Astúrias (Guatemala), Alejo Carpentier (Cuba), Uslar Pietri (Venezuela), Murilo Rubião e J.J.Veiga (Brasil) são alguns dos nomes que vêm à cabeça quando falamos de realismo mágico enquanto corrente literária que teve a América Latina como berço. Mas é relevante lembrar que as influências deste fazer literário se exerceram posteriormente sobre escritores de outras gerações, como Isabel Allende e Laura Esquivel; e de outras latitudes, como Angela Carter, John Fowles, Salman Rushdie, Italo Calvino, Ernst Junger, Mikhail Bulgakov, entre muitos. Escrevendo em Franca, impossível não citar alguns contos de Vanessa Maranha que fazem parte de Oitocentos e sete dias.

Saramandaia, bom produto da cultura popular, volta a ser exibida em momento onde retornaram grandes manifestações sociais . E exibe, coincidência ou providência, já nos primeiros capítulos, passeatas, corrupção, violência, denúncias e tudo o que se passa sob nosso olhar perplexo. A história se repete, é fato. E se ninguém pode se queixar de censura, como antigamente, deve continuar se indignando, pois muitas das mazelas exibidas pelas pleonásticas metáforas do realismo mágico persistem na realidade brasileira.


TEATRO, RÁDIO, TEVÊ

Dias Gomes

Dias Gomes nasceu em Salvador em 1922. Treze anos depois foi para o Rio com a família, onde cursou até o terceiro ano de Direito. Abandonou a faculdade para trabalhar em rádio, onde conheceu a primeira mulher, Janete Clair. Com ela se casou em 1950 e teve quatro filhos. Viúvo em 1983, um ano depois uniu-se à atriz Bernadeth Lyzio, com quem teve duas filhas. Morreu num acidente de carro em 1999. Oito anos antes havia sido eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Vocacionado para o teatro, escreveu a primeira peça aos 15 anos, aos 20 conquistou o apoio de Procópio Ferreira, com quem viria a se desentender por causa de sua filiação ao partido comunista.

Afastado do palco, passou a escrever radionovelas. As 500 peças clássicas que adaptou para o rádio o tornaram conhecido e lhe conferiram grande experiência dramatúrgica. Em 1960 volta aos palcos com O pagador de promessas, que adaptado para o cinema conquistou a Palma de Ouro em Cannes.

Em 1965 surpreendeu-se com a proibição de sua peça, O berço do herói, no dia da estreia. Em 1975 tentou levá-la para a televisão e a mesma foi novamente proibida, também no dia da estreia. Só em 1985 conseguiu exibi-la, com novo nome: Roque Santeiro, até hoje a novela de maior audiência da Globo. Muitos títulos se seguiram, entre eles, Saramandaia. Criada às pressas para preencher um horário, dela Dias Gomes disse: “já que não posso correr o risco de a ver censurada, vou criar algo surrealista”. Criou obra original, que resiste ao tempo.

Serviço
Título: Saramandaia
Gênero: Minissérie
Autor: Dias Gomes
Adaptação: Ricardo Linhares
Horário: 23h00

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