Nova fresta no Opaco

Por: Eny Miranda

Abro a janela. Poreja na atmosfera um tom de opala que vai, pouco a pouco, esgarçando escuridão e silêncio. E logo uma algaravia de luz inunda o Oriente e contamina o mundo. Tudo se embebe nas líquidas cores deste momento de anúncio, de brotação. Os seres todos reiteram olhos e ouvidos e almas, em renascimento coletivo. Saem de seus nichos sonolentos e povoam espaços abertos. Há cânticos de mútua doação nesse dar-se à luz e à vida.
Metade sei, metade pressinto. Uma dor espessa barra-me a vista.
Lembra-me o edifício do Poeta.

Manhã. Certo
muita é a luz
Mas a dor
barra-me a vista.
Zumbido de vida. Peitos de pássaros
arfando. A dor barra-me a vista.
 

Mas há uma fresta na dor; sim, há uma fresta (às vezes acontece). E dela eis que brota um colibri (às vezes, também acontece, vaga mas real possibilidade de a pétrea pena parir asas e íris). Voa em minha direção, a refletir - leveza metálica e pulsátil - a manhã de novas cores; a anunciar, vertiginoso - cinco mil gestos por minuto -, a chegada do dia.
Nascido (bem-vindo) de onde? Do extra, do intra do inter?
Vale sabê-lo?
A dor, assim, pela cor fecundada,
é mais leve.
Por ela sei de possibilidades.
Não, não me barra (há luz nas penas)
a vista.
A vista se abre em asas.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras