Uma cidade de carne e osso

Por: Sônia Machiavelli

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Goiás é berço de sertanejos famosos : Zezé di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Leonardo; de atrizes globais, como Carolina Ferraz e Ingrid Guimarães; de compositores e músicos - Orlando Moraes e Leo Jaime; de economista respeitado- Henrique Meirelles. Goiás é berço onde nasceu e viveu sua infância e adolescência minha nora Milena, mãe de meu neto João. Com ela venho descobrindo o jeito goiano, que é contido mas alegre, reservado e prestativo, gentil sem ser excessivo, cioso de sua intimidade, o que não exclui a hospitalidade.

São traços que encontrei também na literatura de Maria José Silveira, autora de Uma cidade de carne e osso, que li na tarde de sábado passado. Até então só conhecia três escritores goianos. Bernardo Elis (1915-1997), autor de Apenas um violão, O Tronco, Ermos e Gerais, ficcionista de ricas habilidades de estilo, único goiano na Academia Brasileira de Letras. J.J.Veiga (1915-1999), que estreou tarde, aos 45 anos, com Os cavalinhos de Platipanto, sucesso de público e de crítica que continuaram prestigiando o escritor nos treze títulos que se seguiram, todos marcados pelo realismo fantástico. Cora Coralina (1889-1985), poeta e prosadora que também publicou tardiamente a produção gestada ao longo da dura vida que levou, de cidade em cidade, até retornar a Goiás, onde nascera. De seu primeiro título, Poemas dos Becos de Goiás e outros mais, disse Carlos Drummond de Andrade : “Se há livros comovedores, este é um deles.”

Maria José Silveira lembra um pouquinho cada um dos três mencionados por escolher como meio de expressão o conto e ao trazer para o leitor histórias guardadas no fundo da memória e do coração, entoadas pela gente tranquila e sábia das velhas cidades do interior. Este interior goiano, se tem suas especificidades, exibe por outro lado algo muito próximo de todos os interiores, rurais, urbanos e... humanos.

Em estilo coloquial e ritmo pausado, a personagem Dona Cianinha conta para a neta de outra personagem, Dona Hilária, as histórias que compõem o livro e são de domínio público. A narradora, ao resgatar os relatos ouvidos “em uma cidade de carne e osso, isto é, de casa e rua, cercada por uma serra coberta de árvores de cor verde-escura, esmeralda”, acrescenta-lhes elementos, detalhes, sub-enredos, costurando-os com tiradas extraídas da sabedoria popular. No primeiro conto, Teresa Bicuda, para sinalizar o caráter da antagonista, uma mulher que tinha a má fama de levar a morte a quem dela se aproximasse, sentencia: “inveja é veneno peçonhento que está por baixo de muita maldade, quase todo mundo que é mau é mau porque é invejoso, quer o que o outro tem e ele não.” Em A verdadeira história da mulher do padre, intervém de repente com bom humor: “ O bicho humano é assim mesmo, adora uma invenção, um exagero, um rebuliço, um espalhafato.” Na narrativa que tem por título A renda negra do ciúme, fala ao leitor em confi
dência: “Ciúme é veneno terrível, desses lentos, que matam de pouquinho em pouquinho”. No primor de história que tem por título O dono do velho cinema, interroga: “Sempre tem quem diz que o povo é burro, o que me faz achar graça, pois o povo não somos todos nós, inclusive quem fala?”

E assim, ora confidenciando que “hipocrisia e sociedade são comadres e adoram viver juntas”, ora lembrando que “amor quando dá não respeita ninguém, não pergunta se a pessoa quer ou não, chega e pronto, se estabelece”, a narradora entabula uma conversa com o leitor, enredando-o na teia de interessantes histórias lineares de finais quase sempre surpreendentes porque, afinal, “quase tudo é possível nesse mundo de Deus e dos homens.”

O mais belo dos contos, O nome do Rio das Almas, retoma, como a maioria, a tradição e reconta com tintas líricas uma origem. Com alguma nuance de Clarice Lispector, a narradora, depois de descrever o fenômeno de evaporação da água num trecho do rio, diz assim: “ter nome é importante para qualquer coisa: faz parte dela, é como se fosse uma roupa só para ela, aquele detalhe pequeno que a faz única e sem o qual a coisa ainda não é aquela coisa. Só depois de ter seu nome é que a coisa, seja qual for, rio, bicho, gente, passa a ser o que é.” Um micro tratado filosófico em palavras despretensiosas e claras resvalando ao poético.

Parte de coleção organizada por Heloísa Prieto, o livro busca homenagear a boa prosa, unido seus dois sentidos mais visíveis: o da literatura enquanto escrita e o da conversação enquanto arte. A leitura do texto de Maria José Silveira é daquelas que permanecem no espírito fertilizando espaços receptivos. A máxima de Montaigne continua atemporal: a palavra é metade de quem a fala (ou escreve), metade de quem a ouve (ou lê).


VIÉS POLÍTICO

Maria José Silveira

Maria José Rios Peixoto da Silveira nasceu em 1947, em Jaraguá , pequena cidade de Goiás. Antes de completar um ano, a menina muda de cidade, pois seu pai é eleito deputado estadual. A família transfere-se para Goiânia. Nova mudança ocorre em 1963, agora para Brasília, quando o pai é eleito deputado federal. Entre 1966 e 1968 Maria José estuda na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília - UnB. Muda-se para São Paulo, em 1969, e começa a trabalhar como redatora publicitária. Ao lado do marido, Felipe Lindoso, em 1971 entra para a clandestinidade: ambos são acusados de desenvolver atividades subversivas contra a ditadura militar. Dois anos depois são obrigados a exilarem-se no Peru. Ela ingressa no curso de antropologia da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima. De volta ao Brasil, em 1976, permanece no Rio de Janeiro por alguns meses e depois transfere-se para São Paulo, onde fixa residência. Faz pós-graduação em ciências políticas na Universidade de São Paulo - USP. Funda, em 1980, com
Felipe Lindoso e o escritor Marcio de Souza, a Editora Marco Zero, na qual exerce a função de diretora até 1998. Sua estreia na literatura ocorre com a publicação do romance A Mãe da Mãe da Sua Mãe e Suas Filhas, em 2002. No ano seguinte, lança sua primeira obra voltada para o público infanto-juvenil, Tendy e Jã-Jã em Dois Mundos e uma Nova Terra. O livro resenhado ao lado, Uma cidade de carne e osso, é publicado em 2004. No Pequeníssimo prefácio ela escreve: ‘As histórias deste livro foram beber em águas que costumam correr ao lado uma da outra, bem juntas, misturando-se muitas vezes: a imaginação e a memória’.

Maria José Peixoto tem dois filhos e uma neta.

Serviço
Título: Uma cidade de carne e osso
Autora: Maria José Silveira
Gênero: Conto
Editora: FTD

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