Réquiem

Por: Vanessa Maranha

Um velório frio, de secas lágrimas, o caixão quase solitário espetado por quatro canos cromados no centro do salão. O desamparo estarrecedor da morte.

Morrera velha depois de agonia em UTI, doenças incidindo sobre o corpo gasto, as mãos esparsas e duras de dois dos seus filhos em presença hesitante durante os desencadeamentos hospitalares. Possível devolução do que a eles não soubera oferecer. Não aprendera em tanta vida que o que se recebe está na medida ou qualidade do que se dá. Talvez mesmo porque pouco houvesse tido em si para doar.

Os outros quatro filhos, corpos ali, mínima vontade, permaneceriam alheios ao funeral e a qualquer sofrimento incidente, menos distraídos aos cumprimentos aos raros e rápidos visitantes do que por lembranças hostis.

A neta Laura pensava que sim, a morte desnuda qualquer um, dá noção da vida que se viveu. João racionalizava, pensamentos brutos, que ao meio da sala gelada em parte pelo corpo frio, o odor nauseabundo, miasma misturado à confusão de flores, centralizada, estava apenas uma carcaça, uma carne em processo de se desfazer e alma, se ali houvera, seguia já ao longe.

Ricardo se aproximou do ataúde. Não reconhecia a pessoa que ali jazia, os olhos fechados idos à eternidade, também o perfil não lhe parecia em nada familiar, tampouco aquele tom de pele, a ausência de cor, imóvel como se não fosse a sua mãe, mas o cadáver de outra anciã que a sua mãe não era aquela, não a mesma que guardava dentro de si: jovem, mais vivaz, ainda que sempre calada. A vida é um absurdo, crescia-lhe revolta, espanto, algum temor.

Uma nora se achegou mais íntima ao caixão. Observou a inércia, a lamentável mancha de um sangue aguado que tomara boa parte do tecido da blusa de gola alta, agora mortalha, e teve a sanha de vilipêndio: dizer à mulher afundada em flores machucadas tudo quanto desejara despejar e não fizera em palavras, mas atos, numa rotina pregressa de deixá-la só e catatônica à fome no quarto até o marido chegar e, filho um tanto omisso, nada perceber. Nesse arremate, raiva era o que sobrevinha, sentindo-se assim tão má e mesquinha, algum remorso transmudado em incômodo e que então se entornava em agressividade autodirigida: várias vezes saíra daquela sala impregnada de flores para se envenenar com cigarros. Vontade mesmo era a de gritar ali, tal a ruindade dos sentimentos que iam lhe atravessando como estilhaços de espelho. A vítima era agora e irremediavelmente naquela circunstância, a sogra e não mais a nora, trancafiada no silêncio malvado daquela velha.

A única filha, Karen, somente o cuidado com os cabelos resvalando alguma feminilidade, era toda couraça, o corpo rígido, provavelmente dolorido, nunca se dera com a mãe, a mesma que jamais se dera a ninguém. Não chorou pela mãe, aquela mulher.

A mulher dos afazeres sem fim. A mulher ostra de mundos oceânicos e cuja vida lhe doera desesperadamente, sempre fechada, indisponível, friagenta, quase sem palavras. A mulher antes da mulher, uma pré-mulher que se deixara modelar por marido autoritário. A matrona das grossas pizzas e dos bolos caldeados de chocolate, aos poucos, dos feijões com mínimo sal para não atacar a hipertensão do marido e, por fim a mulher da cozinha nenhuma, porque andavam reclamando demais da sem-graceza dos seus pratos. A mulher a quem o desejo fora assassinado muito precocemente. Fadada à reclusão, a voz da mulher só ressoava parcamente para as ordenações da cozinha que até nisso, pouco antes de desistir, já vinham se metendo. Para os tímidos e abafados sussurros na cama nunca se saberá se de algum prazer para as suas reclamações ignoradas, seguira abaixo de bicho, um cão fora naquele entorno melhor cuidado; esculpida ela, portanto, em certa perversidade que devolvia aos pequenos gestos. Essa que poucos impacientes velaram e que logo desceria ao concreto de um cemitério antigo, desses populosos, à terra não voltava. Ia ao cimento duro de mausoléu, a retraída que mais morta vivera toda a sua vida anônima, muito em breve esquecida.

Ao terceiro dia, os seis saídos de si se reuniriam sem pesares para a partilha das coisinhas que haviam acalantado a sua travessia cinzenta: máquina de costura, panelas, livros de receitas, os óculos de grau, a cama de negra madeira dos suplícios de submissão que sempre sugeria o seu apagamento. A mesma onde engendrara os seis, desqualificada como um poço oco.

Sete anos antes havia enterrado o marido dos maus tratos verbais, sonhando libertação que não viera, pois os filhos haviam aprendido o manejo dos grilhões do degredo, aos quais já ia tão acostumada, que chegava mesmo a se ofender quando alguém, um neto, uma vizinha, gente pouco acostumada a tais horrores, lhe tentava oferecer outra perspectiva.

Que sofrimento é também lugar.

A plenitude estava em amar, Karen pensava, desmesuradamente, inclusive, enquanto, um ramo de rosas sanguíneas à mão, coração quebrado, caminhava devagar pelo calçamento do cemitério, na visita que devia à mãe de quem aparentemente pouco sentira a falta. Um cemitério turístico, necrópole das labirínticas ruas sem saída, seus grandes anjos de alabastro sombreando imensas asas, vasos de cobre azinhavrado, poeira aflitiva, as portadas de ferro deixando à visão o abandono.

As milhares de vozes soterradas naqueles sob gigantescos gomeros e fícus, seguia em linha reta com o endereço do túmulo materno num papel.

Karen sentia-se um tanto grotesca na contemplação dessa cultura tumular, os olhos ávidos às suas reentrâncias expostas, odor que misturava formol a flores apodrecidas no ar. O cheiro exato do perecível e irrevogável da vida ida.

Apalpou-se a si mesma discretamente, tocando braços e coxas para a confirmação da fragilidade do próprio corp e constatação óbvia, sempre denegada: acabaria, sim, como a mãe há pouco acabara. O silêncio parecendo retumbar as bocas ali caladas, na quietude eterna, predomínio de tons cinza, o líquen dando a medida macabra de par com as teias de aranha tramadas entre as grades enferrujadas das tumbas abandonadas.

Um engasgo na garganta que se recusava a engolir tal certeza de imobilidade, desamparo e decomposição: o que afinal vale uma vida? Faltava-lhe o ar. Nenhuma alma ali para lhe sacudir e devolver a respiração, um silêncio que parecia convidar à eternidade.

Tonta pela falta de oxigenação, tateou os jazigos em tentativa de apoio e, num deles, que tinha as portas abertas para manutenção,- um monumento em mármore de fímbrias azuladas - mergulhou, buscando apoio. Vitrais coloridos iluminavam numa translucidez mágica o seu interior empoeirado e morrinhento. Karen em desespero se arrastava buscando qualquer saída, já semiconsciente: criança sonâmbula rumo ao quarto materno, e, quanto mais zonza tentava sair do horror que era aquele cenário aparentemente plácido, mais se amortalhava e afundava em movimento circular, descendo as escadarias às profundezas do mausoléu familiar, pelo menos vinte caixões antigos empilhados uns sobre os outros, urnas de cinzas nos cantos, expiação que a enfraquecia e, pouco a pouco, lhe retirava a vida restante.
 

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