Viver

Por: Maria Luiza Salomão

“A gloriosa obra-prima do homem é viver como convém”.
Michel Montaigne


Como convém: como acorda, acerta, ajusta, assenta, combina, concerta, concorda, contrata.

Uma palavra é sempre mais do que uma palavra. Bakhtin (1895-1975), filósofo do diálogo, pensador russo, influência ainda muito viva no estudo da linguística, diz que a palavra só entra na língua quando ela promove vários sentidos. A palavra que possui um só significado é um sinal, não um signo, é como uma palavra estrangeira.

Quando se aprende uma língua não materna, lemos palavras-sinais, desconhecendo o tesouro que a palavra porta, irremediavelmente ligada à cultura que a germinou. Para entender a frase de Montaigne desdobramos o verbo conjugado “convém” e temos vidas imaginárias, não pensadas, não sentidas. Convir parece ter um “efeito de acaso”, ao menos para mim: como verbo intransitivo eu o associo a calhar, satisfazer, o que restringe a polissêmica frase de Montaigne ao viver satisfatório, conveniente, viver intra-muros, submetida a sinais de trânsito, a evitar conflitos, choques, acidentes de percurso; vida adequada, adaptada.

Mas a frase pode adquirir maioridade se permito a entrada de outros sentidos, em estado condensado de semente, quando tomo o verbo como transitivo, em trânsito do eu-eu, do eu-outro. Se o homem acerta, ajusta, assenta, a obra-prima exige que ele escolha, pondere, cinzele o seu viver. Se ativo, convém o homem não se deixar levar pela corrente, ou por correntes que algemem o seu pensar, sentir, agir.

Se o homem acorda (outro sentido) há que obrar os vislumbres. Homem sonolento não está apto a lidar com os perigos do estar vivo: mundo (interior e exterior) que o provoca, invoca, evoca. Se, afinal, “convém” diz respeito a combinar, concertar, concordar a obra-prima urge erigir um homem social, ético, que deve lidar com fronteiras decisivas entre ele e ele mesmo, entre ele e o Outro. Homem que não foge de conflitos, mas que os concerta para transformar em obra-prima o seu viver. Qualquer homem deve manejar contratos, ajustes, pactos que o caracterizam para a posteridade. Não há como fugir do ser ético, “ser em sociedade” (político).

Montaigne descobre, funda, ensaia a palavra essencial: convir é mais do que o prefixo, “com”, mais verbo com o movimento de retorno, “vir” (literalmente “voltar acompanhado”). Convir é verbo de quem escolhe a companhia, atenta mente, com a qual negocia o “eu representativo” e o “Outro representativo”, esculpindo, para o Bem e para o Mal, o Ser Que Convém - obra responsável, monumental, a exibir as marcas dos acertos, ajustes, assentamentos, combinações, pactos com Deus ou o Diabo. O homem acompanhado pelo que acorda de si e do Outro, que volta para aquilo que é, original mente, e se torna...

outra mente.

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