Falando em montanhas...

Por: Everton de Paula

Li a respeito de dois alpinistas brasileiros que atingiram seu objetivo, numa escalada recente.

O que faz esses aventureiros arriscarem a própria vida apenas para estar no topo de uma altíssima montanha?

Aí é que deve estar a questão. Não deve ser “estar APENAS no alto de uma montanha”. O gesto deve significar algo muito mais precioso para a alma humana.

O autêntico alpinista deve adorar a paz das grandes altitudes. Naquela solidão, o suporte da mochila range, e a neve deve gemer debaixo dos pés. Deve-se falar pouco: o esforço é demasiado para se falar. Às vezes, uma avalanche pode desprender-se de um rochedo e rolar encosta abaixo em ruidoso turbilhão.

Imagino um momento de pausa nas alturas.

O homem, de cócoras, apoiado na encosta, admira a paisagem majestosa em volta. O ar puríssimo e gelado traz o ruído distante de um sino pendurado no pescoço de algum animal, lá embaixo, no vale.

O montanhista está, nessas ocasiões, em seu elemento, e boa parte de sua satisfação provém do fato de pensar que o perigo espreita de todos os lados, que sua vida está em xeque a todo o momento.

Não subi ao Monte Everest. Apenas tenho vivido entre os homens, cobiças, invejas, ciúmes, tramas e algum companheirismo. Viver na sociedade competitiva de hoje equivale, guardadas as proporções, a escalar uma montanha, por causa dos constantes desafios. Todos nós queremos ver se chegamos ao topo.

Existem os que burlam as regras do jogo. Conheço realmente uma pessoa que me disse certa vez: “A escalada social e até mesmo profissional corresponde a você subir uma escada, degrau por degrau. Num determinado momento, encontra alguém acima de você. Então você lhe estende a mão, pedindo auxílio para subir um degrau a mais. Quando ele lhe estende generosamente a mão, você o puxa para baixo e, então, toma-lhe o lugar. Não há modo melhor, mais eficiente e mais rápido de você subir na vida.”

Não faço parte deste time, nunca fiz. Talvez, por isto, minha escalada tenha sido, até hoje, calma, sem grandes saltos nem sustos. Talvez, por isto ainda, não tenha me entupido dos supérfluos materiais, nem tenha grandes viagens para narrar ou motos de ene cilindradas para desfilar na passarela das vaidades. Mesmo porque, subir não é um fim em si mesmo, é um meio para você conhecer a si próprio.

Na realidade, um indivíduo não conquista a montanha, ou não vence apenas na vida : conquista-se a si próprio e vence as próprias paixões. Qual a sua reação ante o impasse e o sucesso? Que alternativas de superação devo empregar para atingir degraus mais elevados?

Na montanha, como na vida, a gente vence o enjôo e tudo o mais (as dores, as tonteiras, os temores, as traições, as competições) para chegar ao topo. O homem melhora muito quando se depara com desafios e dores interiores. Aliás, nós precisamos ser estimulados por desafios: isso faz parte da natureza humana.

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