Da atualidade de Graciliano Ramos

Por: Sônia Machiavelli

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“—Temos uma quantidade enorme de cavadores no poder. Só os congressistas! E os ministros, os presidentes, os governadores, os secretários, os políticos do sul. Muito dente roendo o tesouro. E que súcia! Veja os nossos representantes no Congresso Federal. O que diz, seu Magalhães?”

O autor do comentário, que poderia ter sido feito por qualquer brasileiro indignado de nossos dias, é Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo (1934), em alguns momentos alter ego de seu criador, Graciliano Ramos. O dr. Magalhães é um juiz vaidoso e burocrático em cuja casa se reunia o que se poderia chamar de elite nordestina local: o padre, o contador, o jornalista, o fazendeiro, algum candidato a cargo eletivo, agregados, senhoras e moças, entre estas a professora Madalena, por quem Paulo Honório vai se interessar.

O relato em primeira pessoa nos coloca a par da história de um homem, o mencionado Paulo Honório, que de guia de cego chega a dono da maior fazenda da região. Sem ter o nome dos pais na certidão de batismo, criado por ex-escrava, preso durante alguns anos por esfaquear desafeto, na cadeia é alfabetizado por colega de cela. Sai obcecado pela idéia de se tornar dono da propriedade onde havia trabalhado no eito, a tostões. Dinâmico, empreendedor, violento e destituído de qualquer princípio ético, ele o consegue. O ápice de sua ascensão social é marcado pela visita do governador à fazenda São Bernardo.

A partir daí, outro desejo se impõe numa manhã, quando ele acorda pensando em se casar. Idealiza um tipo de mulher que lhe seria vantajoso e, de olho na filha do juiz, vai atrás. Mas encontra por lá outra moça, em tudo diferente da que imaginara, a mencionada Madalena. Loira, miúda, de impressionantes olhos azuis, ela se diferencia também pela cultura e inteligência. Semanas depois o casamento, lembrando um negócio, é realizado.

Bem sucedido na vida econômica, casado com a jovem professora, resta a Paulo Honório garantir um herdeiro, pois já tem 50 anos, vinte a mais que a mulher. Nasce um menino. Parece que tudo vai bem; na verdade, tem início a derrocada do herói, se considerarmos como tal o que luta para impor sua vontade num universo repleto de empecilhos. Madalena, desde a chegada à fazenda, se mostra compassiva em relação aos empregados. Tem pena da miséria em que vivem, lastima a exploração que sofrem, horroriza-se com a ignorância em que estão mergulhados. Visita os doentes, melhora a escola. Tenta junto ao marido favorecer os que se acham em pior situação e encontra resistência cerrada. Aos poucos fica claro que ela não transige com seus próprios valores, não aceita ser subjugada, não se aliena diante de um contexto de expoliação máxima. Isso deflagra o conflito crucial da narrativa, cujo desfecho é trágico.

A história é sugestiva. Mas não é o tipo de relato que torna relevante um romance, e sim a forma como ele é contado. Graciliano Ramos alçou grandeza inquestionável nas letras nacionais por ter encontrado no estilo que criou a tradução perfeita do mundo que pretendeu descrever. Conciso, claro e objetivo, elegendo a palavra exata, afastando adjetivos e advérbios, concentrando-se nos nomes e verbos, lembra Paulo Honório ao colocar na folha em branco sua tragédia pessoal, adotando um processo que consiste “em extrair dos acontecimentos, algumas parcelas; o resto é bagaço (...)”

Se o estilo ilumina com singularidade a narrativa, a estrutura aponta os alicerces em que subsiste a cosmovisão do autor. Assim, a se supor a narrativa um supertexto, sua sintaxe se desvela na ordenação e classificação dos capítulos. Todos os que se referem à vida de Paulo Honório antes do casamento, podem ser percebidos como orações coordenadas, encadeamento de ações que se somam para mostrar um vitorioso exercício de apoderamento. Os que vêm depois equivalem a orações subordinadas adversativas, pois ao sentimento de propriedade do árido protagonista antepõe-se algo contra o qual ele não sabe lutar, já que se circunscreve ao nicho das emoções, matéria para a qual não se sente talhado: “...a culpa foi dessa vida agreste, que me deu uma alma agreste”, diz num balanço final.

No desfecho de São Bernardo, torna-se evidente a condenação do criador à criatura cuja ambição não se restringe a coisas, estende-se a pessoas. Paulo Honório apossa-se de São Bernardo e tenta se apossar de Madalena, mas acaba despossuído. Abandonado, sem estima, sem bens permanece à deriva num mundo que já não compreende e cujo significado busca nas palavras com que vai estabelecendo sua biografia, no livro que tenta escrever.

Dele se poderia dizer que “escreve porque não sabe”, à maneira de Aleksanser Hemon, romancista da Bósnia que esteve na Flip. Neste ano a Feira homenageou o velho Graça, pouco lido pelos brasileiros na contemporaneidade; e pouco conhecido dos estrangeiros, a se considerar o que dele disse, se desculpando, Tobias Wolff, crítico norte-americano presente à feira: “sinto muito, não li nada”. Que pena. O discurso de Graciliano Ramos mostra-se mais do que nunca atual: este tempo de passeatas e contestações reverberadas na Flip seria muito bem recebido por nosso grande ficcionista.


O ESTILO É O HOMEM

Graciliano Ramos

A máxima francesa segundo a qual “o estilo é o homem” parece aplicar-se com exatidão a Graciliano Ramos. De exatas palavras, sóbrio, conciso, crítico de si e da sociedade capitalista, contrário a expansões emotivas, profundo conhecedor dos avessos da alma, o homem não se distanciava do escritor.

Nasceu em Quebrangulo, sertão nordestino, em 1892. Aos 15 foi para o Rio de Janeiro , onde trabalhou como revisor de textos num jornal carioca. Em 1915 retornou a Palmeira dos Índios, se casou com Maria Augusta de Barros, que morreu cinco anos depois e lhe deixou quatro filhos.

Em 1927 foi eleito prefeito da cidade e ficou no cargo dois anos. Neste período escreve em formato original relatórios sobre sua atuação. Estes relatórios chamam a atenção do poeta Augusto Frederico Schmidt que o anima a publicar o romance Caetés.

Muda-se para Maceió, publica São Bernardo em 1934. Preso pelo governo Getúlio Vargas, acusado de participar da Intentona Comunista, cumpre pena em presídio. Esboça Memórias do Cárcere. Angústia, um dos melhores romances em língua portuguesa de todos os tempos, é publicado em 1936. Em 1938 sai Vidas Secas e o escritor se estabelece no Rio de Janeiro. Sete anos depois vem a público Infância, autobiográfico. Filia-se ao Partido Comunista e nos anos seguintes realiza viagem a países europeus. Também vai à Rússia. Na volta faz o relato em Viagens.

Adoece gravemente em 1952. Morre meses depois, em março de 1953.

Serviço
Título: São Bernardo
Autor: Graciliano Ramos
Editora: Record

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