Só se for pra chupar

Por: Paulo Rubens Gimenes

Valdivino, ou melhor Divino, nascera e vivera na Fazenda Mamoneira; pra fora dali, raras vezes com uma ida ou outra na cidadezinha de Restinga, ali pertinho.

E lá foi Divino, crescendo, vivendo e trabalhando na Mamoneira. Criado e crescido desde pequenino na lida, Divino conhecia de tudo na fazenda. Das plantações, do cuidar do jardim do patrão e também de campear o gado, sua especialidade.

Gado guzerá; bicho forte, estúpido que só ele, exigia atenção redobrada, qualquer vacilada era chifre e pisão pra todo o lado.

Essa lida ficava ainda mais perigosa quando tinham que vacinar os bichos, e o Divino com toda sua experiência e sabedoria era quem separava as reses pro doutor Antônio Mauro, veterinário responsável pelo gado que vinha de Franca para a vacinação anual.

Como dizia o caboclo “desgraça pouca é bobagem” e quase no final do serviço despenca um baita temporal, o gado ficando mais impaciente, se espremendo pelas tábuas do curral, quando uma vaca cai pesadamente sobre a lama e lá se apoita, recusando-se a levantar.

Rápido feito corisco, Divino se agarra ao rabo da bicha e começa a puxar pra que ela se levante, e nada!

A chuva apertando, a boiada berrando impaciente e nada daquela “desgramada” se aluir.

Vendo que a chuva logo iria comprometer a vacinação, doutor Antônio Mauro grita:

- Vamos Divino, é pra hoje!

- Tô tentando, mas tá difícil.- reclamou Divino

Já muito nervoso com a situação, o veterinário esbravejou:

- Então morde o rabo dela!

Exibindo a boca desdentada, Divino retruca:

- Com essa boca, só se eu chupar!

Gargalhadas em todo o curral, o serviço ficou pro dia seguinte.

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